Pé de Moleque (Caçula) - Parte 3

AVISO: este é um conto grande. Sim, é ENORME, já aviso agora! Se você tem preguiça e não curte ler histórias ricas em detalhes, sugiro que pare por aqui! Não diga que não avisei.

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REENCONTROS

Eram mais ou menos oito da noite quando a rapariga de cabelo cortado na altura dos ombros desceu daquele ônibus gelado e com cheiro de carro novo. O nariz um pouco entupido, a filha legítima dormindo bem tranquila nos braços e uma mochila de viagens bem discreta pendurada nas costas, onde estava tudo que era necessário à Aurora e também para si. A bolsinha com documentos e alguns itens mais básicos e práticos solta no antebraço, a roupa tipicamente carioca e curta no corpo magro, talvez decotada demais para o inesperado clima ameno do interior do Rio de Janeiro, lá pra dentro, quase na divisa com Minas Gerais. "Cerejal, Cerejinhas, qual era mesmo o nome do local?". Afinal de contas, alguns anos separavam a filha e o lar materno, de onde veio antes de dar o primeiro passo no mundo. E foi com esse mesmo passo que ela pisou também para dentro do chão da sala, sem nem mesmo bater, como estava acostumada a fazer na porta do ex-namorado, pai de Aurora.

- Ô de casa!?

A garotinha foi despertando em seus braços e começou a tentar a reconhecer o local ao redor, abrindo os olhos devagar. Cíntia seguiu caminhando pela casa morna, desviando dos móveis familiarmente próximos uns dos outros e deixando algumas das poucas bolsas e coisas pelo trajeto, manifestando a mesma mania que tinha na época da adolescência de deixar tudo espalhado por onde passava. Alcançou a sala e, ainda sem qualquer resposta, começou a subir as escadas para o segundo andar, sentindo um cheiro familiar de cigarro queimando.

- Filha?

Lá de cima, uma senhora até que parecida consigo surgiu. Camisola clara e molinha de quem vive dentro de casa, aparência de cinquentona, cabelos entre o grisalho e o loiro gema, tingido por causa da idade, poucas rugas pelo rosto e pantufas nos pés. Cheiro de cigarro, copinho de cerveja na mão e um sorriso familiar nos rosto, além do isqueiro na outra.

- Vovó!! - Aurora quase se jogou pra correr na direção da avó.

- Quem diria, ein? - a coroa pôs as mãos nas cadeiras e fez um semblante debochado para a filha antes de se abaixar para agarrar a netinha sorridente. - Voltou mesmo!

Só a mãe da bebê sabia bem o que significava estar ali depois de tanto tempo. Não era coincidência que a última visita tenha sido pouco após o primeiro aninho de Aurora, e por isso a mesma quase não tinha boas lembranças com a avó. O cheiro, o ambiente, as roupas. O copo de cerveja na mão da mãe, além do odor forte de cigarro e o visual de soneca no meio da tarde. Nada mudou, pelo visto.

- Tudo bem, dona Sônia? Quanto tempo! - Cíntia falou, abrindo um sorriso mais do que sincero por matar as primeiras impressões da saudade, que é a da presença física.

A velha e Aurora se abraçaram e ficaram sorridentes, uma tagarelando coisas aleatórias e abstratas à outra.

- Como você tá grande, amor de vó! - ela pegou a bebê no colo e jogou ao alto, arrancando várias risadas divertidas e inocentes.

A dondoca permaneceu com as mãos nos bolsos, observando a cena e sentindo o choque entre várias partes diferentes de si. Quanto tempo levaria? Quanto custaria ter pisado novamente naquele chão familiar? Qual era o preço que teria de pagar por fugir de uma rotina cansativa no Rio e procurar paz no inferno que era aturar as opiniões da própria mãe, motivo, inclusive, que a fez dar o primeiro passo no mundo, para fora daquela casa? A primeira consequência desses passos estava sendo segurada e apertada pela coroa.

- Eu pensei que aquele traste nunca mais fosse deixar você aparecer aqui! - a boca agressiva de dona Sônia não deu tempo.

Ali estava a resposta. A petulância, a arrogância de uma velha insossa e perdida entre os jogos de azar e a incompreensão para com a filha. Quando Cíntia decidiu que era hora de viver a própria vida, determinada que só, não esperou se tornar adulta ou arranjar um emprego, carreira ou profissão para sair de casa. Ela aceitou o namoro arranjado pelo ex-sogro, pai de João, e meteu o pé pro Rio fugida, sem dar qualquer explicação à dona Sônia.

- Não fala assim do João, Soninha! - pediu complacente.

- Não fala do papai, vovó! - até Aurora repreendeu.

A cinquentona então não se fez de rogada e, muito surpresa pela reação da neta, pôs a mesma de pé no chão e pareceu perder os limites do bom senso. Não foram cinco minutos dentro de casa para que Cíntia se arrependesse de ter ali pisado outra vez.

- Sua mãe não te contou, florzinha? O seu pai é um merdalhão! Um suíno incompetente que só pensa nele!

A jovem colocou a mão na cabeça e deu meia volta bufando, ciente do fato de que teria de permanecer ali por um tempo, ao menos pelos próximos dias. Suspirou fundo, desceu os ombros em tom de cansaço e tornou a olhar para a própria mãe.

- Mas que bosta eu tava pensando da minha vida.. - começou a reclamar, percebendo que agora a merda já estava feita.

A coroa aproveitou e insistiu nas alfinetadas.

- Pois é, eu me pergunto isso todos os dias. A única coisa que vocês dois fizeram de bom foi essa menina linda, que é a princesinha de vó!

Deu a mão à Aurora e voltou a pegá-la no colo.

- Mas você não tem nada a ver com os problemas do papai, né, bebê?

A inocência da criança foi mais forte e ela tornou a rir como se tudo que fosse dito anteriormente não passasse de palavras soltas e sem sentido. Cíntia, a rapariga adulta e cheia de experiências na bagagem, virou de costas e, muito arrependida pelo reencontro com a mãe, foi pegando algumas coisas que deixou pelo caminho até ali.

- Sabe de tia, coroa? - ela perguntou.

Desde o começo, quando dona Sônia começou a surtar pelas fugidas e sumiços repentinos da filha adolescente, era sua irmã mais velha que acobertava a sobrinha para impedir que fosse feita de saco de pancadas na hora do esporro. Magra que só, Cíntia logo corria para a casa da tia mais velha, a que mais se prestava a conversar, dar algum conselho, qualquer que fosse, independente de ser ouvida ou não. Quase não era, porém foi mais do que suficiente para a rapariga aprender duas coisas que julgou essenciais na vida: primeiro que família não significava laço sanguíneo, e, em segundo, que o dedo podre para os relacionamentos eram quase que genéticos.

Com exceção da dona Sônia, todas as mulheres daquela família viviam solteiras, optando por manter relacionamentos casuais com outros homens, que geralmente eram mais novos, descompromissados e consequentemente menos possessivos. A mãe de Cíntia foi a única que optou por se casar cedo e ter filhos, mas perdeu o marido muito jovem e passou o resto da vida sozinha, vivendo da pensão e das boas condições que o coroa deixou para ela e o restante da família. Talvez Soninha fosse a típica senhorinha frustrada pela perda nunca superada, que tentava atacar e criticar tudo e todos ao redor como uma maneira de compartilhar todo aquele peso emocional e sentimental que se acumulou ao longo de tantos anos, tantas décadas sem o amor do lado. E sua filha sabia disso, tanto é que escolheu fugir daquela realidade e arranjar a própria vida no Rio de Janeiro, voltando apenas após o nascimento de Aurora para dizer à mãe que agora era avó.

- Mal chegou e já vai pra rua, moleca? Tu não muda mesmo, viu? - a coroa resmungou, ajeitando o pequeno óculos no nariz. - E não aprendeu a me chamar de mãe, né?

Cíntia riu sem graça e pensou em insistir naquela pergunta. Mesmo que já tivesse ouvido bastante coisa em tão pouco tempo, a mina mediu bem tudo que saiu da boca da mãe e lembrou-se de que ela ainda não havia apelado de verdade, por mais ofensiva que tivesse soado. Dona Sônia ainda guardava a real munição capaz de feri-la, se quisesse.

- Força do hábito, coroa! Sempre que eu piso aqui, o peito enche de saudades da juventude com os primos.

A velhota fechou a cara, mas não dificultou mais o progresso da moça.

- Quem desistiu do Rio e veio morar pra cá foi Jonas. O Gabriel você sabe que sempre preferiu cidade grande, né? Aliás, todos vocês são assim meio inconsequentes!

Cíntia respirou aliviada, mesmo sendo continuamente criticada, porque aquilo indicou que não tinha dado viagem perdida no fim das contas. O principal motivo para estar ali era espairecer a mente, então nada melhor do que ter um primo tão rebelde quanto ela mesma para ajudar nessa missão. Ela separou apenas a menor bolsa que trouxe, preparada para o que fazer em seguida.

- Vou dar um pulo na tia, tá?

Despediu-se com um beijo na testa da filha e alisou o braço da coroa como forma de cumprimento, hesitando nos passos para dar tempo de ainda escutar a resposta confirmativa.

- Vai lá, eu sei que tu tá louca pra sair logo daqui! Vou cuidar dessa princesa, vai ser a única parte boa da estadia!

Resmungona e amargurada como sempre. Cíntia não quis permanecer nem mais um minuto ali, sentiu-se apenas por Aurora, que era criança e teria que aturar o péssimo humor da avó. Pelo menos elas se davam bem, sendo a bebê a única pessoa ainda viva capaz de não se irritar com a matriarca ranzinza da família. Antes de fechar a porta, a moça ainda levou um último tiro, sendo esse à queima roupa e vindo pelas costas.

- Ó! Aproveita e pergunta pro teu primo o que o nojento do irmão gêmeo dele anda aprontando no Rio! Eu sabia, sempre falei que o Gabriel e o suíno do teu ex-marido tinham alguma coisa em comum. Dois imprestáveis! - começou a rir e, num surto de velhice e pulmões gastos pelo tabagismo desenvolvido após a morte do único homem que teve, danou a tossir e pigarrear.

Aurora não entendeu, mas achou tudo muito engraçado e riu por impulso da avó quase morrendo sem fôlego. A velhota então foi se recompondo e também riu, apesar da falta de ar e do coração palpitando. Ser amargurada por dentro era mental e fisicamente desgastante, segundo a segundo.

- A vovó comprou uma casinha de bonecas que o inútil do papai nunca vai poder comprar pra você, Aurorinha! Vamos lá ver, vem com a vó! - deram as mãos e foram caminhando juntas até o armário de brinquedos reservado justamente aqueles raríssimos e bastante preciosos momentos de temporária união familiar, ainda que na base de muita concessão por parte de Cíntia, que só agora fechou a porta e parou em frente à casa da coroa.

- "Quê que eu vim fazer aqui!? Inferno de lugar!" - a mente castigou.

A atendente foi caminhando pelas ruelas empoeiradas e não asfaltadas daquele vilarejo inalcançado pelo tempo. Poucas luzes acesas em postes ainda de madeira, o céu completamente mais próximo do toque das mãos, lotado de estrelas super brilhantes, além de um clima agradável, apesar do horário noturno. Enquanto foi admirando os mesmos cenários que construíram sua infância e parte da adolescência rebelde, a rapariga também foi recordando daquela segunda característica principal em sua vida, além da vontade absurda de estar sempre fugindo. Respirou o ar aberto e.. doce! Encheu os pulmões de frescor e liberou profundamente, sentindo o corpo espalhar o sangue nutrido por arredores familiares. Lembrou-se de Jonas e Gabriel, os primos gêmeos que não via há muito tempo, e tentou imaginar todas as possibilidades nas quais suas vidas estariam àquela altura do jogo da sobrevivência. Se ela já tinha uma filha, o que será que poderia ter motivado Jonas a sair da cidade e, além disso, por que sua mãe criticou Gabriel e o comparou ao João? Ela até prendeu os curtos cabelos loiros para trás, deixando uma mecha descer pela orelha toda perfurada por piercings, estilo pirata. Em questão de minutos, chegou à uma viela sem casas, numa espécie de trilha pouco iluminada que levava para dentro da selva. Passou então por um enorme quintal rural, cheio de plantações rasteiras de subsistência, e uma espécie de armário responsável por guardar inúmeras varas e arpões de pesca, além de redes e armadilhas de apanhar caranguejos. Parou no portão de madeira, que estava trancado, e gritou.

- Ô DE CASA!!

Esperou poucos segundos e, sem qualquer sinal, percebeu que muito provavelmente não havia ninguém por ali, já que não obteve qualquer resposta ou indício de presença possível. Cíntia até pensou em chamar pela segunda vez, só que a mente pensativa e arrependida pela viagem quis encontrar sentido em tantas horas dentro daquele ônibus gelado e com cheirinho de novo. Voltou a caminhar, porém não seguiu no sentido de volta à própria casa. Ela entrou pela trilha no meio do mato e agradeceu por alguns pequenos postes de madeira estarem iluminando o local. Não sentiu medo, até porque, se esconder por dias era hábito de moleca rebelde, indomável, dona de si e dos próprios passos. Aqueles eram autênticos pés de moleca, de menina moça, que não tá nem aí pra onde vai pisar, quer mesmo é descobrir e traçar o próprio caminho. Ninguém poderia pará-la, senão ela mesma!

- Eu sabia! - a mãe de Aurora sentiu o ar tornando-se dissipado, porque em algum canto por ali ele se encontrava denso. - Sabia que você tava por perto, Joninhas!

Com o nariz empinado, foi assertiva ao continuar caminhando e, em cima de duas enormes pedras que culminavam numa simpática e deliciosa queda d'água, deu de cara com um mulato deitado totalmente nu, de costas para o chão liso e duro do alto da cascata. Abaixo deles, uma tímida lagoa recebendo toda aquela água, sendo que tudo isso estava dentro de uma clareira iluminada somente pela luz da lua, que vinha bem de cima e espalhava vida noturna por entre todas as árvores, canais d'água e espíritos aventureiros dos homens e das mulheres da região. O moreno olhou para trás devagar e observou Cíntia com os olhos vermelhos e bastante pequenos. O corpo naturalmente escultural deitado de costas na pedra e de frente para toda a lua, sendo graciosamente banhado por um satélite em sua forma completa, cheio. A loira sentiu o peito encher de ar com aquela visão. Era Jonas, afinal de contas!

- Olha só quem apareceu! Tu tá sumida, maluca!

Ele deixou a voz sincera e grossa dominar o ambiente e aproveitou para esvaziar o enorme peitoral de cafuçu moldado pelo tempo, não por academias, exceto pelas da vida. Numa mão robusta, entre os dedos grossos de mavambo, o baseado queimando aceso e bem forte, o suficiente para dar uma meia luz à cena, como se a da natureza não fosse o bastante. O corpo tomado de melanina, tatuado pelos braços e o cabelo disfarçado nas laterais, além de um bigodinho fino de safado. Jonas estava parecendo um faveladinho, bem como gostava de ser na época da também rebelde adolescência. Muitos se lembravam de quem ele foi no passado, lá no começo de tudo.

- Eu que tô sumida, Joninhas? Até hoje você não foi no Rio conhecer a sua prima de segundo grau, seu caozeiro! - a moça desceu por entre o amontoado de rochas e parou de pé ao lado do primo deitado. - Quem imaginaria você vivendo no meio do mato de vez? Nem acredito que ainda tem paciência pra aturar isso aqui!

Abriu os braços e contemplou a noite, apesar da crítica proferida.

- Ah, não fala assim! Tu tá sendo um pouco injusta, maluca! - o apelido carinhoso e antigo sempre remetendo ao passado em comum de ambos, quando estavam crescendo dentro daquele trio inseparável, formado também pelo gêmeo Gabriel.

Jonas tinha a barriga definida e, deitado naquela posição, os gomos do abdômen parcialmente peludo estavam todos visíveis. O oblíquo desenhado para dar a maravilhosa visão da rola flácida e ainda assim grande e bastante cumprida, apesar de não tão grossa. Moderadamente espessa, maior do que o pau que Cíntia se acostumou a ver desde mais novos. O moleque cresceu e virou um puta homenzarrão da porra!

- Eu sei, eu sei! Mas é que nunca imaginei você vivendo no meio do mato, Joninhas!

Jonas sorriu de canto de boca, não fez qualquer questão de disfarçar a cara de chapado e soltou outra vez uma quantidade volumosa de fumaça no ar ameno. Por falar em volume, a rola escura estava com a glande escondida e guardada pelo prepúcio, com poucos pentelhos aparados acima e repousando sobre o sacão cheio, os ovos bem marcados na pochete. Volume pelo visto era sobrenome.

- Ah, vamo combinar, maluca! Todo mundo sabia que a cidade nunca serviu pra mim! Sempre tive ritmo acelerado, então acabei voltando de vez pra Cerejinhas, que é um lugar de paz e abençoado por Jah!

O cafuçu foi se levantando devagar e abriu os braços ao alto, despreguiçando-se num movimento impossível de não olhar. Pareceu um verdadeiro chamado da natureza para lavar o cansaço físico de todo o corpo moldado e relaxado pelo fumo da maconha. Por falar nela, ele aproveitou e passou o baseado à prima, que riu sem graça e aceitou.

- Aqui eu posso andar peladão, fumar maconha o dia todo e comer quem eu quiser sem qualquer preocupação, maluca! Tu quem devia tentar um dia, já pensou? Passar um tempo com teu primo, trazer a Aurora pra eu conhecer.. Vale a pena, pô!

Cíntia pegou o cigarro, deu uma tragada forte e passou o fumacê da boca aos pulmões, inspirando puro THC em forma de vapor. Assim que as moléculas prenderam-se às hemácias no sangue e atingiram os alvéolos pulmonares, que é onde ocorre a troca essencial à respiração, o corpinho pequeno e magro da rapariga nem precisou dos 7 segundos usuais para lembrá-la o porquê de ser chamada de rebelde na adolescência.

- Fuma, viciada! Isso! HAHAAHAHHA - Jonas começou a rir da cara dela.

A moça não conseguiu segu6rar o riso, sentiu que tudo ao redor estava ficando mais fácil e foi se deixando levar pelo começo da onda quente e libertadora da cannabis sativa com um pouco de indica. Skunk do bom, para quem entende de cultura canábica. Daqueles porradeiros que bate na cuca e deixa qualquer um lelé, ainda mais uma mina que já tava anos sem dar um dois qualquer.

- AHAHAHAHAH! - ambos gargalharam pela situação.

Cíntia então constatou a lentidão dos cenários e os ouvidos foram os primeiros a atentarem para todo o resto ao redor, apesar de começar a tossir pela falta de contato recente com a marijuana. As árvores e suas copas formando a espetacular clareira circular, banhadas pelos raios de luar entrando bem por entre as folhas, iluminando a pequena e translúcida lagoa abaixo da queda d'água diante dos dois primos; o ruído da cascata em si, já que não estavam tão alto assim; o corpo ainda despreguiçante do primo, atraente como nunca; a conversa envolvente entre duas partes conhecidas e separadas pelo tempo e pela distância. Tudo estava fora do normal, até que, de trás de onde eles estavam, o mato se agitou e, chapada, Cíntia virou rapidamente, muito embora qualquer movimento parecesse durar mais do que o necessário até ser executado, pela onda do bagulho.

- Desculpa a demora, é que..

Um voz doce e serena saiu por entre as árvores, junto daquela imagem totalmente fora do comum. A mãe de Aurora ficou mais do que assustada: o queixo caiu com a visão daquela pessoa aparecendo diante deles.

- Não tem problema, Jenny! Vem cá!

Cíntia percebeu que o primo estava nu e convidando a mulher recém-aparecida a juntar-se a eles. Do alto da pedra, a mulata da cor negra deu apenas um pulinho e foi descendo até onde ambos estavam conversando. As maravilhosas e brutas curvas do quadril estavam cobertas por um vestidinho todo florido, de rendas, feito em cores escuras para combinar tanto com o excesso de melanina no corpo quanto com a noite mágica do cenário ao redor. Como se não bastassem o brilho pessoal de Jenny, os olhos castanhos naturalmente iluminados pelo quarto cheio e a graciosidade de seus passos até os primos, o charme estava no batom vermelho forte e o cabelo cortado curtinho, bem próximo da máquina um ou dois. O famoso estilo joãozinho, sem qualquer receio. Afinal de contas, quem foi que colocou esse nome masculino num corte unissex?

- Maluca, Jenny! - Jonas começou a apresentá-las. - Jenny, maluca!

Aí riu e, muito tranquilo pelo baseado desfrutado, estendeu o braço na direção delas, como quem quisesse ver um cumprimento formal. Cíntia ficou muito sem graça, tanto por estar fumando quanto por presenciar o corpo nu e delicioso do primo em público. Sentiu-se um pouco culpada pela mistura dessas duas circunstâncias, que, na prática, estavam fazendo com que ela fosse bastante descuidada e manjasse toda hora aquela rola preta, não-circuncidada e coberta pelo prepúcio tão chamativo, um couro mais escuro que o próprio tom da pele do cafuçu.

- Prazer! - a rapariga tomou a iniciativa. - Cíntia!

Virou o rosto e deu um beijo na pele macia e sedosa da conhecida de seu primo, bem na maçã, perto da onde havia um piercing charmoso pra contrastar com o batom vermelho sangue, totalmente carmesim vivo.

- Tudo bem, gatinha? - a mulata se apresentou bem à vontade, beijando ambos os lados do rosto e tocando de leve no ombro da atendente. - O nome é Jennifer, prazer!

Quem tornou a falar em seguida foi Jonas, que aproveitou e abraçou a mulher pela cintura fina, pegando por trás e dando um beijo na nuca sem qualquer pudor pela nudez. Cíntia entendeu rapidamente que os dois muito provavelmente eram peguetes de algum tempo, por isso parou de estranhar aquele momento, apesar de uma coisa continuar martelando sua cabeça como se precisasse de sair do peito.

- A Jennifer é minha contatinha aqui de Cerejinhas, né, Jenny? - o mulato sarrou o pequeno cavanhaque no ombro da amante e arrancou dela alguns arrepios de nervoso.

- SSsss! - o gemido sincero entrou pelos ouvidos da mãe de Aurora.

E a partir daí ela começou a sentir algo totalmente fora do comum. "Quanto tempo, ein, dona Cíntia?", sua voz interna chamou por si mesma. Numa simples jornada de espairecimento, a atendente estava prestes a descobrir que um dos objetivos encontrados estava muito próximo do autoconhecimento e das próprias experiências vividas. Afinal de contas, se há tempo, há experiência, lembranças e um par de escolhas feitas e, por que não, experimentadas? Viver é basicamente experimentar, a todo momento, ela melhor do que ninguém para afirmar.

Jonas saiu de trás da cafuça e nem fez questão de esconder o começo da ereção por conta do contato físico momentâneo. Eles se olharam e aí ele pegou uma garrafa de alguma bebida típica que ela havia trazido, algo que Cíntia deduziu que a mesma só havia ido buscar, já que muito provavelmente estavam ali antes de sua chegada. Foi nesse momento que, chapada e ainda fumando o baseado que não havia passado adiante, ela percebeu em seu primo um olhar malicioso, de quem estava preparado para jogar alguma coisa. Aquele era o Jonas, irmão gêmeo de Gabriel, só que mais velho pelo simples fato de ter nascido primeiro. Mais bruto, mais abusado, muito mais puto do que qualquer um naquela família, talvez por isso a loira entendesse o porquê daquela falta de pudores na nudez explícita, mesmo diante da mulher com a qual ele estava se relacionando. "E que mulher, dona C-", a mente interrompida por si mesma. Eles sentaram à vontade na pedra, Jennifer entre as coxas peludas de Jonas e a prima ao lado dele, um pouco de nada afastada, que era pra poder continuarem fumando e passando o baseado inacabável. Um deles abriu a garrafa com a bebida e, entre muito papo e gargalhadas sinceras e catalisadas pela onda da maconha, os três foram se atualizando de suas rotinas, casalzinho de um lado, Cíntia do outro.

- E como tá o Gabriel, Joninhas?

Jennifer fez cara de dúvida e perguntou.

- Gabriel seu irmão, Jonny? - usou um apelido carinhoso para falar com o macho.

- É, ele mesmo! Ele quis ficar lá no Rio.

Jonas praticamente resmungou aquela sentença e um clima parcialmente amistoso se instalou no ar. A loira percebeu o olhar maldoso e nada inocente dele, notou novamente aquele sorriso e todas as circunstâncias foram mais do que suficientes para trazer nela outra vez a sensação de que algo estava vindo à tona. O corpo foi tomado pela onda lenta e tranquila, Cíntia despreguiçou-se e sentiu o espírito pegando fogo. Tudo era possível, principalmente debaixo da lua cheia.

- Mas por que minha mãe comparou tanto ele com o João?

Eles pensaram, enquanto a terceira, que estava hesitando para não começar a boiar naquele assunto, virou alguns goles da bebida quente e com gosto forte de cereja, uma espécie de licor.

- João teu ex-marido? - perguntou Jonas.

- É!

- Ele é viado?

O mulato deu um riso sacana e o silêncio se instalou novamente entre os três ali, sendo rapidamente atropelado pelas risadas abafadas.

- Sim, sim. Ele tá lá no sul visitando o marido, inclusive.

Ela pensou momentaneamente no pai de sua filha e na figura de Ângelo, lembrou-se de todos os contextos envolvendo a vida urbana no Rio de Janeiro e quis engolir a seco as razões pela qual optou por passar o feriadão longe de tudo aquilo, começando por Luiz Otávio, o Ota, seu ex-peguete. Cíntia e seu famoso dedo podre para relacionamentos e suas complicações.

- Então foi por isso que a tia Sônia falou assim. Ela é tua mãe, ninguém melhor que tu pra saber como ela pensa, né? - o primo concluiu assertivamente, após simples dedução e habilidade argumentativa.

- É verdade! Mas eu jamais imaginei que o Gabriel tivesse essa coragem. Que ele curtia a gente sempre soube, né não?

Até Jennifer gargalhou com eles, porque certamente conhecia o gêmeo do ficante e muito provavelmente conhecia seu comportamento marrento e às vezes ingênuo no sentido sentimental.

- Ele tá morando com um maluco que conheceu na época do ensino médio, pra tu ter uma ideia! - riu. - E, por falar nisso, eu sempre falei que tu e ele eram duas malucas nesse sentido!

Fez questão de usar a palavra no feminino, conduzindo o entendimento ao que Cíntia estava justamente tentando não transparecer. Mas estava muito difícil: diante dela, Jonas falava tudo enquanto beijava o pescoço de Jennifer, lambendo com a língua úmida a pele negra e sedosa da mulata, que não parou de fumar o baseado e ainda deixou a marca vermelha do batom. Pra não falar nos olhos finos e castanhos, também muito vermelhos ao redor. A mão do cafuçu dominando o queixo dela, como se os dedos fossem entrar pela boca a qualquer momento.

- E você, Jonas? - a atendente se preparou para respondê-lo à altura. - Já tá preparado pra sair desse armário? Aliás, já tem anos, né?

Ficou rindo e não esperou que ele fosse dar continuidade àquela sequência de respostas sinceras e na ponta da língua.

- Nah, eu não sou viado, não!

Tossiu de leve por conta da fumaça que tragou do cigarro de maconha, deu outro beijo molhado na linha lateral do queixo de Jennifer e falou sem afastar os lábios da pele escorregadia de babada.

- Até já andei comendo uns viados, não vou mentir! E de vez em quando rola uns repetecos, um reencontro ou outro, mas é que me amarro muito em buceta! - Jonas metralhou, arrancando um riso mais que verdadeiro da ficante. - A Jenny sabe bem, né?

Mordeu a carne do rosto da cafuça e só então ela se afastou, rindo pelas últimas palavras ditas por ele, mas confirmando de forma não verbal. Cíntia ficou incrédula. Fez cara de dúvida e não conseguiu disfarçar tamanho constrangimento, como se nunca tivesse feito ou falado coisas do tipo quando mais nova. Afinal de contas, por onde andava toda aquela rebeldia de outrora? Ela sabia que o primo era evitado pela maior parte da família por ser excessivamente sincero, a ponto de ser constrangedor, mas aquilo ali já estava num nível totalmente avançado da falta de pudores.

- A nossa parada aqui é aberta. A gente é sempre sincero um com o outro, então acaba funcionando! - ele ainda explicou bem atencioso o porquê de poder falar sobre qualquer coisa na frente de Jennifer.

Mas a mãe de Aurora não soube mais o que dizer. Viu-se diante de um dilema, o reencontro de si consigo mesma, numa perspectiva sinestésica que jamais imaginou sentir novamente. Chapada que só, ela fechou os olhos e permaneceu sentada diante do casal, algo não planejado e que acabou trazendo efetivamente sua audição ao pé da orelha, como se pudesse estar perto de tudo num determinado raio, onipresente sinestesicamente: os ruídos entre os beijos dos amantes, a água da cascata caindo no lago abaixo deles, alguns pássaros se ajeitando nas copas das imensas árvores ao redor, até mesmo o baseado queimando em sua mão, produzindo o sonzinho de palha pegando fogo, tipo brasa. Enquanto isso, a mente sendo bombardeada por muita erva, dissipando relaxamento físico e mental por todo o corpinho de menina moça, toda moleca.

- Mas que eu me lembre, maluca..

Ela escutou a voz de Jonas no canto da orelha, até sentiu o hálito quente dominando o pescoço pela lateral, além do peso do queixo do cafuçu sobre o ombro. Abriu os olhos devagar e, diante de si, Jennifer sorrindo como se aquela cena fosse engraçada. Sentiu um frio percorrendo a própria espinha, até que a mulata falou bem baixinho.

- Você também gosta de nadar quando a lua tá cheia?

Acima da cabeça, o satélite natural guiando a índole de todo mundo ali, num banho de lua que só fez melhorar o cenário para a onda da marijuana em forma de cigarro. "E agora, Cíntia? E agora!?", a mente trabalhou.

- Éramos eu, o Gabriel.. - o primo continuou dizendo no pé do ouvido.

Ela então sentiu a mão espalmada e quente subindo pela coxa direita, atravessando de forma maliciosa o zíper da roupa e querendo matar saudades do contato físico, independente de quem estivesse ali com eles.

- E também tinha você! A rebelde, a mais maluca de todas!

A loira engoliu a seco. Pela frente, Jenny foi devagar e deslumbrante ao levantar os braços e puxar o vestidinho pela parte de cima do corpo. Ao sair, o tecido deixou que dois grandes seios caíssem e ficassem empinados, as auréolas lisas e mais negras do que a própria pele, os bicos ainda tímidos por conta do começo de todo aquele contexto. Sorrindo com o batom vermelho, ela engatinhou felina até à perna de Cíntia, abaixando-se devagar, mas sem parar de encará-la com os olhos de gata manhosa e finalmente livre da gaiola.

- Então eu me pergunto.. - Jonas concluiu. - Por onde será que anda aquela Cíntia que eu conheci? A porra louca?

Ela parou de olhar para Jennifer e encarou o primo. Cara a cara os dois, ele soube que havia ganhado aquela luta assim que a rapariga começou a mexer os lábios para responder. A mão entrou pelas vestes curtas, os dedos atravessaram o tecido e pararam bem sobre o começo daquela pequena e tímida rachadura iniciada pelo botão do prazer. Aquele detalhezinho bem pequeno e responsável por toda a vontade que Jonas estava sentindo desde o momento em que pôs os olhos no corpo da prima que não via há tanto tempo. Ele nem se importou com a presença da ficante, pelo contrário, soube exatamente como as coisas se desenrolariam, então enfiou a boca na de Cíntia e usou a língua e a mão na parte de trás da cabeça dela para que a pegação fluísse. Dedilhou as intimidades como se fosse um piano a ser explorado, teclando parte por parte e constatando que estava bem lisinha. Ele sentiu o cheiro delicioso que o fez ficar excitado, quase que lambeu os dedos e voltou a procurá-la por dentro, bem no íntimo, enquanto a donzela foi abrindo as pernas e permitindo o contato intrusivo de prosseguir.

- Sssss! Safado! - quase não saiu.

- Tu se amarra, né? Ainda tem o mesmo cheirinho de quem rebola gostoso!

A ex-mulher de João não desconfiou daquele desfecho, apesar de saber como as coisas eram sempre muito intensas quando estava ao lado de Joninhas, o querido primo. Ela permitiu que a boca cedesse e começou a atracar a língua na do cafuçu, sentindo que era ele quem controlava o ritmo e a direção da coisa. Ao mesmo tempo, o dedo grosso e experiente passou roçando de leve pela renda da calcinha, bem sobre o grelo sensível e guardadinho da loira. O corpo se arrepiou, os seios começaram a dar sinal de que o tesão estava se aflorando e Cíntia só fez ficar mais solta, além de intumescida.

- Hmmm! - gemeu, de tão entregue que a coisa a deixou.

O cabelo atravessado nas mãos ditadoras de Jonas, a boca cheia da língua quente e grossa dele, bastante intrusiva, além dos dedos maldosos estarem pedindo cada vez mais espaço dentro daquele aperto da bermudinha curta. Foi quando, para mostrá-la como seria o funcionamento daquele sistema, o cafuçu tirou a mão e olhou no rosto saliente de Jennifer, levando para que ela também sentisse o cheiro deixado em sua pele.

- Ssss! - a cafuça gemeu, agarrou e alisou um dos próprios seios, não resistindo e caindo de boca nos dedos grossos que anteriormente estavam dedando a prima de seu ficante.

Essa visão repentina foi a chave final para que a flor entre as pernas da loira desabrochasse completamente, dando início à polinização daquela rebeldia guardada durante tanto tempo no mesmo vaso. Cíntia lembrou-se até de João e Ângelo, talvez por serem o casal homoafetivo mais próximo de si até então, sendo que, durante todo aquele tempo, tudo que ela mais vivenciou estava ali dentro do peito, querendo ser gritado, tirado e saído. A certeza veio quando Jennifer abaixou-se de vez com o rosto entre as pernas dela e, tomada de verdades e abandonando toda e qualquer dúvida que pudesse existir, lambeu a calcinha de Cíntia de baixo à cima, fazendo questão de deixá-la molhada e de roçar pesado contra toda o comprimento da entrada da pepequinha rosada e tímida, apertada que só, bastante morninha.

- SSSSSS! - os dedos dos pés da filha da dona Sônia chegaram a torcer, ela toda arreganhada numa pedra, banhada pela luz da lua negra e também por um mero satélite natural orbitando a Terra.

Enquanto Jonas continuou ocupando a boca da prima com beijos cheios e selvagens, em fluxo de dominação, ele também pegou a mão dela e levou à própria caceta, para que percebesse o quanto poderia ser saudosista quando estavam próximos naquela situação sexual. Um tentando agir mais sincero do que o outro, com muito calor no peito e tesão aflorado pelas células da pele. O cheiro forte de linguagem sexual sendo dita e falada em alto e bom tom. Sim, estou falando do odor nítido de um volume, que nem quando você escuta o barulho do ferro da cama rangendo e se lembra logo do que? Isso, exatamente! A sinestesia do sexo!

- Eu sabia! - Jonas parou de beijá-la só para dizer olhando nos olhos dela. - Sabia que ainda éramos os mesmos em quase tudo! - riu.

Abaixo, Jennifer afastou a renda da calcinha e fez o primeiro contato com a cereja do bolo no corpinho franzino, porém não menos gostoso de Cíntia, que estava toda exposta e à mercê da vontade dos dois safados ali presentes. Um macho mulato de um lado, uma negra carinhosa demais do outro, ela no meio, no intermédio entre os dois mundos, aproveitando o que ambos tinham, faziam e também queriam de melhor naquele sistema único de funcionamento sexual. "Quanto tempo?". A ponta úmida e quente da língua de Jenny tocou a outra ponta do grelo da loira, massageando num movimento circular e tão intenso que Cíntia chegou a se contorcer de nervoso.

- Hmmmmmm!

"Quando foi a última vez?". As mãos da cafuça pareceram garras sedosas na maneira elegante de segurar suas coxas no ar, para que tivesse mais espaço na hora de afogar de vez a cara no bucetão exposto. Mais uma vez de baixo à cima, Jenny botou a língua toda pra fora e subiu esfregando na entrada da carne rosada e molhadinha, babada e com cheirinho de sabonete. Agora foi mais fundo, permitindo que o músculo da boca fosse lá dentro da boceta, aí sentiu que era mesmo apertada, além de perceber que o botão acima estava sofrendo as primeiras consequências do prazer. O músculo da língua foi pressionado mesmo no comecinho da penetração oral, indicando pouco diâmetro de abertura.

- Você gosta, né? - parou só para fazer a pergunta.

Aí abaixou novamente e engoliu de uma só vez o grelo da atendente, brincando com ele na boca e aproveitando para introduzir o primeiro dedo no aperto interno da vulva.

- Ahnnn! Sssss!

Jonas notou que Cíntia ficou bastante entregue às carícias de sua ficante, então achou justo que elas participassem de forma exclusiva do sexo, optando por apenas testemunhar aquilo tudo que estava prestes a se desenrolar diante de seus olhos. O macho de verdade não precisa de lidar com pressa, ele sabia disso. Porque nem todo prazer estava ligado ao fazer, muitas coisas nasceram para serem observadas. A lua, por exemplo, ela às vezes não dá uma impressão, um semblante de quem sabe que está sendo vista e observada de longe?

- Hmmm, oihnnn!

Ele acendeu um baseado, tirou as mãos dos corpos expostos e, sentado numa pedra pouco acima delas, serviu-se de um copo de bebida, abriu bem as pernas e começou a fumar maconha enquanto foi se tocando lentamente, tudo isso enquanto ainda era banhado pela lua de cima e pelo novo sistema solar explodindo abaixo de si. De repente, não havia mais chão, para nenhum dos três ali. As coisas simplesmente perderam o sentido. Ou, dependendo do ponto de vista em questão, elas só estavam começando a tomar novos caminhos, rumos. O que a rapariga foi fazer ali, desde o começo? Cíntia libertou-se de si e decidiu que já era a hora.

Jenny engatinhou até à boca da loira e, com o corpo pesando sobre o dela, alcançou seus lábios e trocou com ela o gosto da própria genitália, o sabor vívido daquela intimidade presente entre as coxas apertadas do corpinho magro. Os seios de uma sobrepuseram os da outra, mamilo com mamilo, e ambas começaram a se beijar deliciosamente, numa troca quente de carícias físicas, encontros e reencontros do que poderíamos chamar de lua cheia: completude era a chave para unir todas as fases, da rebeldia à calma.

- Sssss, eu sabia que essa boca era boa de beijar, Jenny!

A cafuça riu.

- Sabia, né? E demorou tanto tempo assim? - mordeu o lábio inferior e, com as mãos ao redor da cabeça da loira, voltaram a se agarrar sem hesitação.

Jennifer seguiu outra vez descendo pelo corpo, agora passando pelos seios apalpáveis em apenas uma mão de Cíntia e se certificando de que foram feitos para caber exatamente em sua palma, num dos mais maravilhosos contrastes entre as peles negra e branca, uma sobrepondo a outra física e sexualmente, duas mulheres deitadas nuas e descobrindo os mistérios e detalhes da feminilidade compartilhada.

- Eu sou tímida, sabe? - Cíntia riu.

Jenny então foi além e chegou novamente com a língua no grelo, tornando a massageá-lo, chupá-lo, mordiscá-lo e prendê-lo entre os dedos, ora entrando pela passagem quente e úmida da prima de Jonas, ora brincando de apertar o botão mágico latejando, bem rosadinho, parecendo uma cabecinha.

- Ghmmmm! Aihnnn! - a atendente não se conteve.

Tentou prender as mãos em alguma coisa, mas não encontrou nada, já que estavam sobre uma pedra. A única alternativa foi prender-se ao curto cabelo de Jennifer, hesitando muito para não acabar segurando suas orelhas. Tímida o caralho, Cíntia não durou nada. A cara ficou acabada, o suor escorrendo e os cabelos bagunçados no meio de tanta chupação.

- Ssssss! Safada!! Olha o que você tá fazendo comigo! - gemeu alto.

Atrás de si, Jonas masturbando uma vara grande e grossa, assistindo a tudo aquilo de cima das pedras empilhadas, tomando álcool rosado e fumando maconha, ambos na mesma mão, entrelaçados. Uma tora farta, cumprida e veiuda tinha seu couro parcialmente lilás puxado e trazido de cima pra baixo, insistentemente, parecido com o que a cafuça começou a fazer na racha da filha da dona Sônia.

- Tímida o caralho! - Jenny parou pra dizer.

As mãos estavam pressionando seu crânio como se a qualquer momento ela fosse entrar com a cabeça dentro da loira, que era basicamente o que a outra pareceu querer, de tão excitada ficou naquela condição. Como solução para o problema, Jennifer entrelaçou as coxas nas pernas dela, deixou que as duas vulvas batessem de frente e, devidamente conectadas e escorregadias pelo excesso de tesão, suor, umidade e muito estrogênio exalando livre pelo ambiente dominado pela mãe natureza, os dois corpos totalmente diferentes encontraram uma sinergia única naquele ritmo lento de se mover e esfregar ao mesmo tempo e num mesmo espaço. Um clitóris apertado e amassado contra outro, ambos deslizando incessantemente por conta de muita vontade de foder.

- SSSSSS! Ffffff!

Cíntia chegou a ficar sem ar com a primeira relada troncuda que a mulata deu contra si. Segurou-se com tudo na pedra e, pra completar, ainda foi puxada no sentido oposto pelas mãos experientes da ficante de seu primo.

- Hmmmf, continua, Jenny!

Ela contorceu o quadril e isso elevou o atrito num outro nível, engatando fechadamente a tesoura improvisada. Intimidade com intimidade, formando uma única presença calorosa que era como uma comunhão da rebeldia com a calmaria. Um mar revolto cercado por belas donzelas. Por que não sereias?

- Safada! Prende em mim, prende!

As peles se arrepiaram e suaram ao mesmo tempo, num reencontro do calor com o frio delicioso da região do Rio Paraíba do Sul. Sobre elas, Jonas se levantou e foi se aproximando, uma mão masturbando a verga enorme e a outra alisando o próprio mamilo. Deixou maconha e bebida para trás para finalizar o próprio prazer, dando conta do espaço respeitado entre as moças diante de si. Ele soube que, HÁ MUITO TEMPO, lá no começo de toda a jornada, teve também seus momentos de ouro e auge, brilhando como sol num outro sistema solar e agindo como agente protagonista em situações diferentes. E, preparado para ver a evolução das coisas, quis testemunhar aquele passo adiante, ciente de que o sexo estava sendo bastante importante às duas, até mesmo a si próprio.

- Ssssss!

A cabeça da caceta cuspida começou a babar, o sacão pendurado bateu firme como se os ovos já tivessem tomando noção da quantidade de tesão que precisariam de dar conta, cogitando, talvez, até esvaziar a mamadeira toda de uma vez. Haja leite, ein! As duas amantes mantiveram o ritmo, coxa cruzada com coxa, ambas engatadas e em total intimidade, uma mandando ver contra o enlace do físico da outra, contraindo quadril, ventre, cintura, tudo junto, além de abraços, beijos e muita carícia. No auge do encontro e do reencontro, Jennifer puxou novamente Cíntia para perto de si e as duas voltaram a se beijar ferozmente, com direito a mordida e puxada de lábio pela ponta dos dentes.

- Hmmmm! Ssssss!

A atendente sentiu um dedo intrusão penetrando por sua vagina e, pela unha, se deu conta de que era ela. A pele roçou junto com o encontro entre os grelos, resultando num atrito ainda mais intenso e escorregadio, pelo fato de ambas estarem muito molhadas. Além disso, a penetração estabelecida pelo dedo intruso só melhorou a sensação crescente de desejo, que levou Cíntia ao arrepio total do físico e também da mente, retornando ao próprio eixo de si, como se só aquela atividade ali pudesse finalmente relembrá-la do ouro.

- Aihnn, Jenny! Sua maluca, olha o que você tá fazendo comigo! Hmmmm!

Jennifer não quis mais falar, só aumentou o tranco e se prendeu contudo na cintura da loira, investindo pesado na sarração e na dedação. As bocas se cruzaram, Jonas parou de pé ao lado das duas e, batendo seu punhetão animado por aquela visão, imaginou-se sendo duplamente mamado, uma na cabeça e outra no saco, porém não se deu ao luxo e também o despeito de interrompê-las. Quando foi consigo e teve a oportunidade de desfrutar outro homem, ele também não quis ser interrompido. Ninguém tão consciente quanto Jonas, o filho gêmeo mais velho e incompreendido. Cíntia entortou a cabeça para trás e arqueou o corpo completamente, deixando a coluna envergada marcar pelas costas. Abriu os olhos no auge do prazer e fitou a lua cheia. Sentiu outra mulher mergulhando e nadando profundamente dentro de si e só faltou babar de tão extasiada que ficou, esquecendo tudo ao redor por vários segundos seguidos. O físico franzino ficou todo arrepiado, a pele de veludo pareceu saber o que estava prestes a acontecer e, num impulso automático, ela sentiu o verdadeiro desabrochar de um poder secreto dentro de si.

- Orhhhhh! Hmmmm!

O pescoço foi lambido pela língua saliente de Jennifer, que se agarrou ao corpo suado da atendente e meteu o nariz em seus cabelos loiros, fungando e cheirando todo aquele odor de feminilidade que tanto buscava em suas parceiras de transa. Nesse mesmo instante, Jonas começou a gozar em jatos longos e certeiros de porra quente e bastante esbranquiçada, talvez pelo contraste com sua pele grossa e carregada de melanina.

- Huummmm! Ffffff, que delícia vocês duas!

Cíntia esticou as coxas e, como última sensação física, permaneceu conectada aos deliciosos encaixes de Jenny, enquanto toda aquela onda de orgasmo acabava de se alastrar pelo corpo. Dez segundos, vinte, muitos espasmos e contrações que a fizeram se derreter por dentro e transformar o prazer em inúmeros afloramentos de um mel gostoso que escorreu pela vulva, molhando ainda mais todo o encontro. E o reencontro. Do grelo com clitóris, boceta com pepeca e de prima com primo. Ou de prima com peguete do primo, talvez. Jonas, por sua vez, permitiu que a gala atravessasse os dedos e também escorresse pelo chão.

- Hmmmm! Caralho! Fffff!

O corpo todo envergado para frente, os músculos trincados, além dos pelos suados e o sacão estufado e pulsando de tanto que os ovos chacoalharam com aquela bateção de bolo. Diante de si, duas mulheres exaustas e jogadas por cima da pedra, uma negra e outra branca, no máximo vermelha e cansada de tanto tesão externalizado. Suor, estrogênio, rebeldia, sexualidade e melanina. Qual o cheiro disso tudo, não fosse pela presença da natureza ao redor preservando tudo que acontecia dentro daquela doce e atraente clareira natural? Acima dos três, apenas a luz da lua mais forte do que nunca, banhando seus corpos e vontades de saber o que viria a seguir, depois do choque causado pelo encontro. Ou reencontro.

Cíntia ficou tão anestesiada que permaneceu nua e deitada até quase o fim da onda da maconha, que durou mais algumas horas, já que estava há muito tempo sem fumar. Ela e Jennifer sentaram lado a lado e ficaram conversando sobre suas subjetividades favoritas, além do fato de descobrirem que ambas eram mães. Perna por cima de perna ainda. Jonas ficou na dele, rindo e interagindo na medida do possível, porque percebeu a química rolando além da física e da biologia das moças e não quis se sentir incomodando algo tão bonito e raro de se ver. Ele sabia bem da distância que tinha da prima, lembrou-se um pouco do próprio irmão vivendo feliz no Rio de Janeiro e se sentiu um pouco contente por tê-la visto sendo o que era antes de saírem dali, na fase da adolescência. Uma mistura de nostalgia, saudades e um leve gostinho.. DOCE! Talvez de cereja, quem sabe? Ou melhor.. ameixa!

- Gente, eu acho que vou indo. - ela só falou quando percebeu a hora e a ausência da filha por um tempo prolongado.

Aí pensou na mãe em casa, viu tudo que acabara de fazer e entendeu o porquê de odiar pisar ali: dona Sônia detestava qualquer coisa que a remetesse ao amor, principalmente se fosse ao alheio. Isso se manifestava da pior forma possível: a velhota sentia repulsa à toda forma de amar, incluindo aquela ali feita por ela, o mesmo sangue do sangue. Ao mesmo tempo que sentiu a onda da maconha e a leveza pelo sexo terno e delicioso com Jennifer, a loira sentiu também a presença da realidade prestes a voltar com tudo, a partir do momento em que desse um passo novamente para dentro de casa. Como olharia na cara da mãe no dia seguinte e conseguiria escutar as mesmas críticas de sempre, se agora havia voltado a cruzar os próprios limites?

- Vai ficar aí até quando, maluca? - Jonas perguntou curioso.

Ainda estava nu e com a rola molhada pelo leite jogado fora, recuperando-se aos poucos do suor escorrendo pela testa e também no peitoral.

- Só pelo feriadão, eu acho..

- Aparece por aqui amanhã, então! - Jennifer quem a convidou.

A mãe de Aurora levantou-se, vestiu a roupinha curta que estava usando e colocou a pequena bolsa pendurada nos braços. Sentiu o próprio equilíbrio retornar e, devagar, foi virando para sair, a mente lotada de pensamentos. Aqueles ali eram os bons motivos da viagem, caso dona Sônia insistisse em irritá-la. Cíntia não ultrapassou limites: ela na verdade nunca os teve, simplesmente por não ligar muito pra isso.

- Vocês vão estar aqui? - perguntou.

A mulata olhou a atendente de baixo à cima e respondeu sorrindo, enquanto era beijada na lateral do rosto por Jonas.

- Se você vier, pode apostar que sim!

A resposta causou um sorriso sincero da mãe de Aurora. Ela então se despediu e foi caminhando de volta para o meio das árvores, alcançando em pouco tempo a mesma trilha que usou para chegar à clareira. Em menos de dez minutos, a loira estava desfazendo o caminho inicial que fez depois de sair da casa da mãe, só que agora com a mente trabalhando a mil, ou pelo menos tentando, por conta do efeito da maconha ainda presente, ecoando latente. Isso pra não falar do físico cansado e exausto pelo melhor de todos os exercícios feitos num bom tempo. "Quando foi mesmo a última vez?", pensou. Antes de atravessar o portão, a moleca pegou o celular no bolso e mandou uma mensagem para a primeira pessoa com quem sentiu vontade de conversar sobre todas aqueles acontecimentos.

- "Você não vai acreditar, João!"

Começou a digitar eufórica, aproveitou e pediu notícias ao ex-marido. Neste mesmo impulso, enviou também um áudio para Ângelo, seu parceiro de sempre, além de bom exemplo de superação a ser seguido. Cíntia, assim como o professor, havia testemunhado toda a volta por cima dada pelo aluno rebelde, vendo sua transformação de autêntico revoltado a pai de família responsável, apesar da distância. Imaginou que os dois estavam muito bem, sentiu saudades de casa e respirou fundo. Depois da mensagem enviada, ela notou que nem mesmo a primeira, que mandou semanas atrás, havia sido sequer recebida por Anjo.

- "Será que tá tudo bem mesmo?" - pensou.

Entrou pela casa escura, passou pelo quarto de hóspedes e viu a filha dormindo tranquila na cama de solteira. Riu e suspirou aliviada. Em seguida, foi até o banheiro e tomou um banho quente e bastante demorado, talvez pelo calor necessário para cozinhar tantas ideias desabrochando na mente. Comeu qualquer coisa quando saiu, deitou-se na outra cama do mesmo cômodo onde Aurora dormia, e, com o corpo leve e relaxado, no finalzinho da onda da erva, Cíntia finalmente fechou os olhos e dormiu toda arreganhada no colchão, que nem quando era a adolescente rebelde que um dia conheceu o professor João e com ele teve uma filha. De repente, naquela noite, tudo que ela menos queria era acordar de manhã e ter a impressão de que aquele foi apenas um bom sonho sobre a adolescência. Só mais um terno capítulo para figurar todos aqueles desencontros, encontros e reencontros.

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ACERTO DE CONTAS, PARTE 1

Depois de ter chegado no sul pela quinta-feira de feriado, tido uma péssima sexta após descobrir sobre as peripécias do ex-marido e ainda lembrar-se do que fez durante a noite, João, o professor imerso em raiva e tristeza, amanheceu até que tranquilo durante o sábado. O corpo renovando-se após tanto tempo soluçando, pensando e repensando em tudo que acabara de passar, a mente trabalhando numa velocidade um pouco menor do que o normal, além de uma perigosa vontade de não sentir que viajara apenas por decepção. Afinal de contas, era a primeira vez na região sul do país, isso para não citar todo o contexto envolvendo seus desejos recentes de aprontar alguma coisa, principalmente se fosse para que o sargento Ângelo ficasse sabendo. 30 e tantos anos e uma vontade irresistível de manifestar um comportamento não tão didático quanto aprendera na profissão de professor. Aquele que professa outras carreiras, entre outras palavras, é capaz de professar qualquer outro caminho. Profissionalmente.

- "Você não vai acreditar, Jão!"

Ele desbloqueou o celular e foi a primeira mensagem que leu da ex-mulher, que estava no interior com Aurora, na casa da mãe dela. João pensou que teria mais coisa para ler, mas, além daquilo, apenas o de sempre.

- "Aliás, você ainda não me contou como que tá aí! Tá tudo bem?"

O ex-marido de Anjo até quis respondê-la, mas a mente pouco conturbada e recém-desperta pediu o contrário. Porém, como forma de começar um novo dia e já definir quais seriam as prioridades do mesmo, João optou por evitar a ex-mulher e ao mesmo tempo dar alguma satisfação, mas só o básico, para não dar tanta trela.

- Me conta quando eu voltar, aqui tá tudo desabando.

Ele bloqueou o aparelho e, no susto, tremeu quando o mesmo começou a vibrar, antes mesmo do horário do almoço.

- Muita chuva? - Cíntia estava acordada e respondeu quase que imediatamente.

O professor pensou um pouco e optou por não preocupá-la tanto, porém não dando muita trela ao mesmo tempo. Não ficou nem um pouquinho curioso para saber o que a loira tinha de tão importante para contar.

- Quem dera! - teclou. - Te conto no Rio!

Só que ele não teve escapatória, isso só deixou Cíntia ainda mais aguçada para descobrir, então tentou resumir.

- Peguei o Ângelo com outro viado dentro do quartel, deu a maior confusão!

A outra logo respondeu.

- O QUE!? VOCÊ SÓ PODE ESTAR DE BRINCADEIRA!!

João quase se sentiu ofendido, como se tivesse sido desacreditado da própria palavra. Não ser levado a sério era uma dor profunda para um professor, como se toda a argumentação resumitiva fosse por água a baixo.

- Pareço estar brincando?

Ele aproveitou da cara de sono, toda amarrotada, e tirou uma selfie para enviar à ex-mulher, dando ainda maior credibilidade ao próprio discurso, considerando necessária a aprovação dela para confirmar que estava numa bad absurda. Olheiras fortes por baixo dos olhos, semblante de exaustão e a pele precisando de qualquer raio de sol para poder reagir, era assim que o professor estava naquele momento. Do outro lado da linha, Cíntia viu a imagem e se assustou.

- Não, Jão, como assim!? Isso tem que ser engano, eu conheço o Ângelo!! - ela teimou.

Mas não quis discordar da palavra do pai de Aurora, pelo contrário, só quis confirmá-la e mostrar que algum mal entendido estava acontecendo. Mas quem conheceria o sargento mais do que o professor, no fim das contas?

- Aquele cara JAMAIS trairia você! Pode acreditar! Ele é a pessoa mais dedicada que eu já conheci, Jão!

O trintão sentiu-se um pouco desfavorecido com aquela comparação indireta. Teve que gravar um áudio resmungando, com a voz baixa e rouca de recém-acordado, na intenção de mostrar a insatisfação com a qual interpretara aquela sentença.

- Obrigado pela parte que me toca!

A raiva pelo ex-marido ainda o fez recordar da cena que tanto trabalhou em se esquecer. Os dois ex na mesma cama, no colchão onde ele dormia e descansava a cabeça diariamente, sem saber. Tudo tramado em suas costas, da mesma maneira que estava acontecendo naquele presente. Nada de novo sob o mesmo sol sulista e ameno da pequena cidade, tão falso quanto o sargento em suas desculpas esfarrapadas.

- Não! Me desculpa, Jão! Não quis ofender!

A loira tentou argumentar em gravações da própria voz. Estava radiante como nunca, acordou contente naquela manhã de sol do interior de Cerejinhas, mas, ainda assim, foi incapaz de concordar com tudo que estava lendo e escutando por parte do professor.

- É que não consigo mesmo ver o Ângelo te traindo, do tanto que conheço vocês nesses últimos anos! É impossível! - ela fez uma pausa. - Olha, sabe o que você precisa fazer? Conversar com ele, é isso! Aí sim vão se entender!

Só que João estava muito cansado daquilo tudo, começando por tentar entender o lado do ex-marido. Aliás, já era ex, estava entrando no passado e deixando de fazer parte do presente. Ou não? Tudo isso aconteceria no exato momento em que o professor decidisse retornar ao Rio de Janeiro, ele soube bem, por isso se segurou antes de responder qualquer coisa para Cíntia.

- Conversar!? Até parece! Eu sei muito bem tudo que eu vi, Cíntia! Eu vi outro cara se insinuando pro meu homem e.. - parou, repensou e se corrigiu. - Quero dizer, pro Ângelo! E ele não fez absolutamente nada, de tão incrédulo que ficou! Depois ainda teve a cara de pau de defender o viado, será que você não acredita nisso!?

A loira ficou engasgada na linha.

- Cíntia? - ele chamou, porém não teve resposta.

Insistiu mais duas vezes e nada, a rapariga simplesmente permaneceu desacreditada e totalmente inconformada, a ponto de não conseguir responder qualquer frase, completamente sem palavras. "Como assim traiu?", ela pensou. "Não é possível, Ângelo!". Lembrou-se então de que o militar ainda não havia recebido as últimas mensagens enviadas de semanas atrás, e pensou se aquilo poderia ter a ver com tudo que estava escutando naquele momento. Pela demora na resposta, João desligou a chamada e tornou a bloquear o celular, resmungando a si mesmo as últimas coisas que escutara da ex-mulher.

- Conversar! Agora você vê? De jeito NENHUM!

Para completar o cenário, outra vez a mente foi bombardeada pela cena dos dois em sua cama anos atrás. "Será que é por isso que ela defende tanto ele?", o pensamento do professor inferiu. Na raiva dos últimos dias, qualquer ideia tornava-se passível de ser contaminada pelos desejos corruptíveis pairando na mente inquieta. Tudo que envolvia Ângelo desenvolveu uma capacidade repentina de se estragar aos poucos, como num veneno que cresce de dentro pra fora, vazando pelas células do corpo e infectando tudo ao redor. O tempo, as lembranças, as escolhas.. tudo simplesmente corrompido pelo ego forte e impositivo do cafuçu que João chamou de amor durante anos. Antes de virar de lado na cama, o pai de Aurora coçou os olhos cansados pela saída na noite anterior, e, mais uma vez, sentiu o celular vibrando. Sem desbloqueá-lo, leu pela aba de notificações a última mensagem da mãe de Cíntia.

- "Ao menos me promete que você vai pensar em conversar com ele antes de voltar!"

Ele leu e sentiu-se um pouco enojado com tamanha intimidade. O menor contato de qualquer coisa com Anjo era tóxico, bem como já dito. E isso incluiria até mesmo a ex-mulher, caso ela permanecesse naquela insistência em falar do mesmo assunto, da mesma mazela ainda doendo no peito. João finalmente escureceu a tela do aparelho, virou-se na cama e tornou a fechar os olhos, perdido na tênue linha entre tristeza e cansaço. Como diferenciar, quando um sobrepõe o outro? Não precisa, basta tentar dormir, até pegar no sono só pelo excesso de tentativas, num ócio longo e aparentemente interminável de exaustão e melancolia. No fim das contas, você agradece pelo sono, muito embora ele seja pesado e, na pior das hipóteses, carregado de sonhos e pesadelos aterrorizantes, porém nada tão mais assustador do que a própria realidade, o professor soube bem.

No antigo batalhão de treinos para os jogos das forças armadas, a rotina pelo sábado de manhã se manteve a mesma de sempre, ainda que durante o feriadão. Diferentes treinos ao redor, cadetes e recrutas convivendo juntos e realizando as tarefas diárias, na intenção de aprender um pouco sobre disciplina e postura, além de competir nas olimpíadas cada vez mais próximas. Bom, talvez nem todos ali fossem exatamente disciplinados ou tinham alguma postura. O sargento Ângelo era o extremo oposto: aprendeu cedo, modificou o caráter rebelde e tornou-se um dos primeiros sargentos mais novos em seu posto, isso em poucos anos dentro do exército. O cafuçu chegou morto ao batalhão, não dormiu uma noite inteira por qualquer razão aparente, após ter se estressado e saído do próprio apartamento. A pele negra não permitia que as olheiras ficassem tão visíveis assim, mas o semblante de cansado denunciou que alguém passara a madrugada toda acordado, fazendo qualquer coisa importante que fosse, talvez na intenção de atropelar as mágoas causadas desde a chegada do atual ex-marido. A que ponto chegaram!?

- Bom dia, sargento! - a primeira fileira de aspiras o cumprimentou quase que por inteira, algo que fez Ângelo parar de andar e olhá-los em formação.

Ele esboçou um sorriso completamente vazio, fechou os punhos e deu a falta de alguém naquela fila. Observou Renan sentado sozinho e com o pé parcialmente tomado de ataduras e não entendeu direito. O Caçula, por sua vez, teve certeza quase que absoluta que foi o sargento que o seguiu de carro até em casa na noite anterior, mediante qualquer tramóia planejada pelo aspira nerd e da bunda grande, cujo nome nenhum deles queria ter que lembrar, afinal de contas, estava trazendo problemas. Ângelo se lembrou de toda a raiva que sentiu antes de ir para a rua na sexta, quando encontrou com João pela última vez e quase apelaram para a violência física como forma de entrar em comunhão, se é que isso era possível. O ódio acelerou a corrente sanguínea, ele percebeu o corpo ficando eufórico e soube que não era boa ideia ter ido trabalhar naquele estado. De qualquer forma, já que estava ali, ao menos se empenharia em cumprir com a obrigação, apesar de ter a ciência de que não seria nem um pouco fácil. Logo de cara, antes mesmo das onze da manhã, quando entrou sozinho pelos chuveiros do silencioso e abandonado vestiário do subsolo, o sargento se viu TESTADO. Estava esfregando o abdome malhado e tentando não forçar muito o físico exausto, quando escutou um assobio familiar soando por trás de si, vindo do mesmo corredor por onde entrou.

- "Só pode ser brincadeira!" - pensou, já que estava mais do que atrasado e viu todo mundo já em formação.

Todo mundo, exceto por ele.

- Bom dia, sargento!

Ângelo escutou a voz saliente e tramada, virou o corpo para trás e quis não acreditar naquela visão. Diante de si, o nome que não queria ser lembrado se fez presente em carne e osso: Samuel! Sem roupa, a toalha jogada no ombro e o corpo completamente nu, em toda a graça de sua silhueta malhada e bastante definida. E que raba do caralho! Podia ser filho da puta, mas era igualmente RABUDO! Ele não ousou chegar perto de Anjo, apesar de estarem os dois sozinhos no mesmo vestiário. O sargento sorriu irônico e deixou transparecer ao aspira o contentamento com o fato de estarem a sós. De repente isso significava que ali poderiam conversar sem qualquer problema ou intromissão, área limpa. Ângelo desligou a água caindo por cima de si e foi caminhando animado para o lado de Samuel, já esfregando as mãos por conta da rápida oportunidade que apareceu de vê-lo pessoalmente. "Que fácil!", ele pensou. Quando finalmente parou do lado do recruta, deixou os enormes dentes brancos de fora como se fossem presas, preparado para o momento bastante planejado e entrando numa espécie de contagem regressiva para instaurar sua ditadura de marrento, milico e mestre.

- Eu tava mesmo querendo bater um papo reto contigo, aspira! - não usou a linguagem oficial para tratá-lo, preferiu a da rua, de homem pra homem. - Parece que tu não entendeu nada da nossa última conversinha, né?

CINCO. O bundudo não quis dar atenção, apenas deixou o sabonete cair propositalmente no chão e se preparou para virar de costas e abaixar para pegá-lo. Mal chegou à metade do movimento planejado, a mão enorme do sargento bateu em sua nuca e o agarrou facilmente como se fosse um filhote de mamífero sendo carregado pelas presas do bicho mais velho. A partir daí, percebeu que seria mais difícil do que imaginou.

- ACHO BOM TU NÃO DAR AS COSTAS PRA MIM, SEU ARROMBADO!

QUATRO. De esticado e preso à carne de Samuel, o braço do milico se fez contraído e trouxe o corpo menos desenvolvido do aprendiz de marinheiro até o domínio bruto do cafuçu fora de si. Com a veia da testa saltando e totalmente nem aí para qualquer regra ou lei, o mavambo sequer reparou na caceta de fora roçando de leve contra o corpo do mais novo, acuado e todo dominado adiante. Samuel aproveitou essa deixa para tentar forçar o contato, como se a provocação fosse capaz de seduzir um Ângelo completamente tomado pela vontade de se vingar. As próximas frases vieram grunhidas no pé da orelha.

- Da onde tu tirou que tem intimidade comigo, seu piranho? Tá pensando que eu tenho a tua idade, é!? - o tom de voz abaixou, mas permaneceu extremamente irado e raivoso.

TRÊS. A mão ao redor do pescoço apertou e só a partir dali Samuel percebeu o inevitável: estava correndo perigo! A começar pela respiração, que deu de falhar e aí ele teve um princípio de nervosismo, seguido das pernas bambeando de aflição e alguns músculos do corpo que pareceram colabar.

- Já te avisei várias vezes pra andar na linha e agora TU ME DEIXOU PISTOLA, SAMUEL!

DOIS. O sargento não conseguiu se controlar. Ter o aspira debaixo do próprio poder pareceu um domínio totalmente injusto, surreal. Num simples apertar de mãos, ele teria o corpo morto de um jovem de 18 anos em seus braços, caso decidisse que assim seria, dando fim à uma provável brilhante carreira de marinheiro ainda sendo projetada. Aquele era o responsável por seu afastamento forçado do ex-marido, então não teve jeito, Anjo basicamente esqueceu da noção de força e só deixou o ódio fluir.

- O João não quer nem olhar na minha cara por culpa tua, seu piranho! Tu já se importou com alguém na vida!? Sabe o que é ter um marido?

UM. O novinho então teve a péssima ideia de provocar a fúria violenta de um cafuçu truculento e prestes a explodir. Virou o rosto na cara dele e respondeu sem medo, crente que a diminuição no tom de voz era sinal de calmaria. Bobo, Samuel talvez pecasse em experiências de mundo, apesar de não ser tão inocente.

- Ah! É aquele coitado que é o seu namoradinho, sargento? Eu bem desconfiei qu-

ZERO! A cabeça do aspira pareceu uma bola de basquete arremessada do outro lado do vestiário, colada ao corpo e batendo por vários bancos de madeira. Todas as veias e artérias no tronco bruto do cafuçu se encheram de sangue inflamado, como se ele tivesse presenciado um ataque físico ao seu amado bem diante dos próprios olhos. E antes mesmo de Samuel tentar levantar, após ter caído todo torto por cima de um dos assentos de madeira, ficado zonzo e ainda girado feito boneco no chão, Ângelo já havia pulado em cima dele e aplicado o primeiro botadão certeiro no canto da boca, bem do lado da cabeça machucada.

- REPETE, SEU MERDA! FALA SÓ MAIS UMA PALAVRA SOBRE O MEU HOMEM PRA TU VER O QUE VAI TE ACONTECER!

Outro soco que virou o rosto do mais novo para o lado, o corpo mais pesado imobilizando completamente o menos forte.

- CADÊ, ACABOU A CORAGEM!? - parou de bater e prendeu o nerd pelo pescoço. - PERDEU A VOZ!?

A lateral da face de Samuel começou a inchar, além de um corte sangrando pelo lábio e outro na testa, proveniente do impacto e da queda. Ele sentiu as escoriações e uma enorme dor de cabeça, principalmente depois de ver a água do chuveiro caindo no chão e ficando vermelha antes de escorrer pelo ralo, próximo de onde os dois estavam jogados, um incapacitando o outro. Sozinhos naquele vestiário, aquele foi o começo do fim para o aspira nerd, que se sentiu zonzo e percebeu que muito em breve perderia a consciência, caso não fosse ajudado ou pelo menos encontrado nos próximos minutos. A visão ameaçou se desfazer, o corpo deu início ao processo de arrego, mas contra raiva não havia argumento, não naquela situação. Não era um treino militar, afinal. Aquele era um acerto de contas de homem pra homem, nada mais, nada menos que isso.

Renan não quis ficar de pé com os outros aprendizes durante a formação matinal. Acordou tão puto quanto foi dormir, depois de ter perdido a cabeça com Samuel e lesionado o pé esquerdo. Dormiu com dor e sem descobrir o que aquele putinho tava tramando, além de ter se atrasado na manhã seguinte. Pela soma de todos esses motivos, o moleque marrento optou por fechar a cara e permanecer sentado ao lado da fileira de aprendizes de pé no pátio. Não era nem meio dia quando, todo fardado, ele viu o sargento Ângelo chegando também atrasado pela primeira vez desde que se alistou, como se todo mundo tivesse acordado com o pé errado. Num único encontro de olhares, Renan sentiu que aquele homem provavelmente passou a noite acordado e não soube muito bem relacionar este fato com as piranhagens de Samuel, apesar de saber que algo estava acontecendo.

- "Será que eles se encontraram e meteram até de manhã?" - ficou pensando. - "Também não vi aquele piranho ainda!" - recordou.

Caçula lembrou-se do carro que o seguira na noite anterior, após sair do batalhão, e, mesmo mancando, não sossegou até obter qualquer resposta para todos aqueles acontecimentos recentes, desde os esporros do irmão mais velho até o leite morno no rabão do aspira nerd. Assim que Anjo passou em direção ao vestiário do subsolo, Renan adiantou o passo e escapou pela parte traseira da quadra, sem muito problema para despistar o restante dos amigos em formação. Demorou um pouco por conta do pé meio arrastado, mas em questão de minutos atravessou a porta dos chuveiros e se deparou com aquela cena um tanto quanto inusitada: Samuel pelado e deitado no chão, com o sargento Ângelo também nu e por cima dele. Só podia ser brincadeira! Que flagra!

- PERDEU A VOZ!?

Renan demorou poucos segundos para entender que aquilo ali não era putaria, e sim briga das pesadas, principalmente por conta da cor vermelha começando a marcar a água descendo do chuveiro. Sangue! Mesmo com o pé lento, ele tomou impulso e se jogou contra o corpo imponente de Anjo, atirando o próprio sargento no chão do boxe e libertando o parceiro marinheiro de seu domínio. Aquele, no entanto, seria o único feito do momento, porque a dor no membro inferior veio muito mais intensa que antes, obrigando o moleque a se abaixar no chão. A calça branca ficou molhada e pouco vermelha ao absorver a água do boxe.

- Hummmf! - Ângelo caiu pro lado, porém era muito maior e nada sentiu, apenas foi movido.

Inclusive só tombou porque foi pego de surpresa, já que seu corpo era muito mais desenvolvido e consequentemente mais difícil de ser derrubado. Puto, ele rangeu os dentes e se colocou de pé rapidamente. Renan ajudou Samuel a se levantar e viu que o rosto dele estava vermelho pela falta de ar. Ele até poderia estar puto pelas últimas do amigo abusado, porém aquele ali era seu viado, só uma pessoa podia usá-lo e batê-lo caso quisesse, e essa pessoa era ele, o próprio Renan Caçula. Foi nesse instante que o verdadeiro acerto de contas começou, diante de vapor quente de vestiário masculino e ódio nutrindo corpos em iminente colisão.

- Calma, sargento! - o irmão mais novo do tenente Tiago não era burro.

Era forte e malhado, mas ciente de que não aguentaria na trocação com um cafuçu maior e muito mais potente que ele, bem mais bruto e arrogante, além de catalisado pelo fator ódio.

- CALMA É O CARALHO, CAÇULA! TÁ CHEGANDO AGORA E AINDA TÁ ACOBERTANDO ESSE FILHO DA PUTA!? - apontou de longe na fuça do aspira.

O tom de voz elevado por pouco não fora escutado do lado de fora do vestiário, graças ao barulho da água dos chuveiros ligados. Os dois aprendizes se viram acuados por conta da fúria estridente do superior. Samuel correu pra trás de uma pilastra próxima e ficou só olhando a cena, talvez calculando alguma maneira de sair dali. O corpo dolorido, pelado e marcado pelo choque, tudo pagamento pelo comportamento abusado e petulante de recentemente. O preço!

- Se tu vai defender esse viado, então eu vou moer os dois na porrada, tô pouco me fodendo pros problemas do casal!

Fechou a mão, bateu com ela na palma da outra e deu os primeiros passos na direção deles, sem pressa, porque sabia que dificilmente seria atingido por qualquer golpe bobo, muito menos seria parado por meros novatos da academia.

- Tu acha que dá conta, sargento!? - Caçula provocou, como forma de tentar ganhar algum tempo.

Egocêntrico que só, ainda chegou a colocar pouca fé de que ele e Samuel juntos poderiam fazer qualquer coisa contra Ângelo, um pensamento infeliz que durou menos de um segundo: o cafuçu levantou Renan pela gola da blusa branca do uniforme e falou na cara dele, quase que cuspindo.

- E agora, Caçula? Vai chamar o teu irmão pra te defender!?

Enquanto os dois machinhos estavam no meio daquela trocação de farpas e ameaças do começo da briga, Samuel viu o momento exato em que Anjo tentou atravessar a cara de Renan com um soco, mas o Caçula conseguiu se proteger usando os antebraços, que receberam todo o impacto e logo a dor veio, seguida da ardência e do arrependimento em não ter desviado. Quente de raiva e na vontade de se vingar, o irmão mais novo do tenente Tiago arriscou com sua malícia de rua: ameaçou com a esquerda, tentando calcular mais ou menos os conhecimentos de luta do sargento, para só então aplicar a direita.

- Arhh!

O resultado foi equiparável, um acertou o rosto do outro ao mesmo tempo que tentaram fugir dos ataques chegando. Anjo com a mão fechada na bochecha de Renan, enquanto Caçula socou o outro lado da face do sargento, sendo que as outras mãos optaram por se atracar. Travaram. De trás da pilastra, Samuel observou um cafuçu quase que por cima do outro e isso o trouxe um tipo de excitação totalmente fora do comum. As próprias palavras de outrora vieram à mente como se fossem novas.

- "Eu sou um viado abusado e mais esperto que você, e que ainda vai pegar todo mundo que você conhece naquele batalhão!"

Diante de si, dois machos brigando, um querendo atacá-lo e outro defendê-lo. O vencedor levaria o cu, quem sabe? Ele se sentiu um prêmio e tudo isso serviu como combustível sexual para a lenta punheta que começou a bater, inebriado e vislumbrado com aquela cena de luta e resistência debaixo do chuveiro do batalhão. A cabeça ainda zonza e sangrando um pouco, todos os fluídos misturados e descendo pelo ralo, assim como sua porra muito em breve também faria, resultado da observação de dois mavambos em pleno ato de violência explícita, um pelado e roçando totalmente no outro. De um lado, o sargento, que era todo grandão e másculo dentro da farda do exército. Por conta da divisão de treinamento para os jogos das forças armadas, que unia todos os pelotões e unidades da região, ele e Renan, que eram da marinha, estavam em contato direto com uma diversidade infinita de homens servidores da pátria, então ali estava um dos melhores representantes do que era se alistar no exército.

- Humpff!

Ângelo deu um soco contra o antebraço de Renan e o Caçula sentiu que estava em seu limite, apesar de se manter estável contra um oponente muito mais complicado e pesado. A postura de briga começou a ceder e ele escolheu dialogar como forma de tentar mediar a situação que se iniciou quando foi defender Samuel.

- Que porra é essa, sargento!?

Mas não teve resposta. Os dois travados e agarrados um no outro, a ponto de se quebrarem com os braços a qualquer momento, não fossem os músculos, cada um deles em sua própria forma cafuçu de ser.

- O que foi que tu fez, Samuel!? - Caçula gritou para o nerd, numa tentativa de entender o que estava acontecendo ali.

Nervoso, o aspira ficou confuso na própria resposta e tentou enrolar.

- Não sei! Eu só vim tomar banho, e..!

- MENTIRA! Deixa de ser mentiroso, seu filho da puta! Tu abriu essa boca imunda pra falar do meu marido!

O tom afirmativo deixou Renan chocado. Quando viu aquilo da última vez na história do exército, marinha ou aeronáutica, pelo menos desde que entrou? Ele até escutou que rolava muita putaria em qualquer força armada, porém reconhecia bem o fato de que conhecer Samuel, que também curtia macho, era certo privilégio, por conta da proximidade entre eles. Agora era a vez do sargento, um superior indireto deles, admitir a própria homossexualidade em um tom elevado de voz, sem qualquer pudor ou significado pejorativo, sem medo ou receio, numa liberdade tão brilhante que foi quase como um flash na mente de Renan.

- Já conversei TRÊS VEZES com esse puto desse recruta e ele continua fazendo merda, Caçula! Toda vez é a mesma coisa, ele não desiste de dar em cima de mim! - o sargento conseguiu se comunicar, apesar de permanecerem em posições defensivas diante um do outro. - Só que dessa vez esse arrombado falou do meu marido, então tomou um sacode! E tu tá tomando outro porque veio se meter no lugar dele, seu fedelho!

O irmão mais novo do tenente Tiago se sentiu sem chão. Aliás, não foi só isso que ele sentiu: dor óssea, desconforto muscular, dormência nervosa, rosto inchado, pé latejando, além da ligeira sensação de ter sido apunhalado pelas costas, tudo isso reunido na mesma pessoa. Se o sargento decidisse dar um último soco, Renan não teria o que fazer, aceitaria o impacto e cairia no chão como se nada fosse. E foi só agora, percebendo que estava quase destruído, que a pergunta cruzou a mente como uma bala de canhão disparada em cheio.

- "Por que tudo isso? Por quem?"

Ângelo então tornou a levantá-lo pela blusa e o colocou virado na direção da coluna onde Samuel estava tocando o próprio pau duro.

- Sabe o que tu vai fazer, Caçula!? - disse num tom ameaçador. - Tu vai mandar esse teu viado desfazer todas as merdas que ele tá causando, tá me escutando!?

Ele ouviu e não soube o que responder. Ali estava o começo da resposta que há tanto tempo procurava.

- O Samuel.. - hesitou brevemente. - Ele tava dando em cima de você?

O tempo pareceu parar dentro daquele vestiário. Ninguém pôde sair, muito menos entrar. O sangue deixou um cheiro de ferro que poderia também ser confundido com a raiva interna exalando do corpo de cada um dos cafuçus ali, cada um deles descobrindo seus motivos para rebelar-se.

- Ele sempre fez isso, Caçula! Tu não tava ligado? - e aí veio o que Renan jamais esperou escutar. - Só que eu nunca encostei um dedo nesse puto, porque eu tenho marido, tenho uma vida fora desse quartel, tu tá ligado?

O irmão mais novo do tenente não acreditou. Ainda segurado pela gola da roupa toda molhada, olhou na direção de Samuel e percebeu o aspira todo acanhado no canto, tomado pela visão aterrorizante de dois machos enormes e preenchidos por sangue quente e estufado nas correntes sanguíneas. Talvez as coisas estivessem caminhando mal para um determinado sabichão. Ou sabichona.

- SAMUEL! - ele gritou avermelhado. - Que merda é essa que ele tá dizendo!?

Aquela pausa constrangedora desarmou a inteligência superestimada do ninfeto. Ele se sentiu a pior pessoa do mundo, mas só porque sucumbiu ao nervosismo e perdeu a noção da possibilidade daqueles dois seres se encontrarem e conversarem abertamente sobre tudo aquilo. Como pôde?

- RESPONDE, SAMUEL! - Caçula demandou uma explicação. - Tu não tinha me dito que o sargento te arregaçou no vestiário, Samuel!? - Renan não conseguia parar de chamá-lo pelo nome, a veia começando a marcar firme no pescoço.

- O QUE!?

Anjo voltou a ficar raivoso e parou de dar atenção ao irmão do tenente.

- TU AINDA TEM A CARA DE PAU DE ESPALHAR MENTIRA DE MIM, ASPIRA!? TU TÁ PENSANDO QUE EU TENHO A TUA IDADE, SEU MERDA!?

Ele sabia que estava no batalhão, mas a brincadeira já havia chegado longe demais. A falta de comunicação poderia destruir qualquer família, menos aquela que o sargento tanto tentava proteger.

- Eu não tenho idade pra ficar transando pelo batalhão que nem vocês, seus vagabundos! Eu tenho uma família pra cuidar, vocês sabem o que é isso!? Eu tenho uma filha!

Samuel arregalou os olhos e não soube o que responder. Diante deles, um militar superior pelado, descontrolado de raiva e dando detalhes da própria vida íntima sem qualquer pudor ou falta dele.

- E é por isso que EU NUNCA TRAÍ O MEU MARIDO, SEU BOSTA! Independente de qualquer merda que tu esteja contando por aí, eu quero que tu desfaça essa porra AGORA, tá me escutando, Samuel!? Não tô nem aí pra porra de amigo oculto nenhum!

Caçula não acreditou no que tinha acabado de ouvir. De acordo com suas lembranças e tudo que o colega marinheiro disse anteriormente, alguma coisa não estava batendo. Na mente, Samuel havia sim transado com o sargento, debaixo de um daqueles chuveiros, inclusive, após uma das vezes em que foram pegos metendo. Ele contou aquilo! Ou era mentira? Não! Como pudera?

- Pau mandado do caralho, comigo tu não se cria! A única vez que eu te encostar um dedo vai ser pra dar a surra que teus pais não deram, porque tu é um SONSO! Eu não aguento nem olhar pra essa tua cara de piranho! - Anjo seguiu impávido.

Só então Renan entendeu tudo, entrando em silêncio absoluto. Foi como se vários capítulos de pura enganação fossem lentamente dissolvidos, segundo por segundo, dentro de cada um daqueles estômagos presentes no cenário. O cafuçu truculento apontou uma última vez na cara de Samuel e o ameaçou.

- Não vai ter próxima vez, recruta! Se eu te pegar outra vez falando merda, vai ser pra MACHUCAR DE VERDADE!

Ângelo se secou, enrolou-se numa toalha e saiu em direção à área dos armários, pronto para vestir a farda e com a cara mais enfezada do que nunca, dando passos largos e decididos sobre o que fez. Antes de sumir, olhou-se no espelho e constatou o queixo inchado por conta do soco de Renan, então apontou na direção dele e avisou.

- E isso aqui vai ter volta, Caçula! Fica esperto! - as sobrancelhas até franziram, por pouco não se encontrando.

Deixou os dois sozinhos, um com o outro. Caçula ignorou a ameaça, olhou para o rabudo e só conseguiu pensar numa única coisa, que metralhou sem dar tempo logo à queima roupa, sangue frio de chuveiro quente de vestiário masculino, onde tudo acontece. Paradoxos!

- Por que tu mentiu pra mim?

Mas a resposta foi outro silêncio absoluto, ou seja, não aconteceu. O irmão mais novo do tenente Tiago caminhou devagar até onde o colega de marinha estava caído, a testa ainda sangrando pouco pela briga de minutos atrás, o rosto inchado e o pé esquerdo dolorido. Sentiu os braços queimando de dor por tantos socos defendidos a troco de nada, e agora concluiu que foi usado. Defendeu ninguém esse tempo todo!

- Por que, de todas as pessoas, tu mentiu logo pra mim, Samuel?

O pé de moleque parou em frente ao corpo ferido do nerd, que se manteve sem saber o que dizer.

- Eu não sei, eu.. queria te deixar com ciúmes, e-

- Ciúme!?

Ele sentiu vontade de gargalhar e ao mesmo tempo dar um chute no meio da fuça daquele viado, para fazê-lo sentir dor mesmo. A raiva foi tanta que se confundiu com a truculência e a dominação. Renan ficou tão puto por dentro que o cacete deu o primeiro sinal de vida e pulsou firme na calça. O amor e o ódio podem se cruzar diversas e diversas vezes. Não vemos agressão física na dominação, por exemplo? Pergunto: é amor ou é ódio? O mais importante é a delícia em descobrir. Ele o segurou e fez o que já tava na hora de fazer: impôs moral. Ia botar pra rolo a verdadeira marra e truculência de um cafuçu perto dos 19 anos.

- Tu mente na minha cara, inventa uma porrada de mentira e ainda tem a CORAGEM de falar que foi por ciúme, SAMUEL!? Tu deu até pro Tiago, seu ninfeto! - ele manteve a ereção presa nas mãos apertadas, a calça marcada de rola dura. - Até no meu pai tu sentou, seu ingrato do caralho! Agora vem dizer que foi pra fazer ciúme pra mim!? Vai tomar nesse teu cu, filho da puta!

Caçula carregou o cuspe cheio e atirou certeiro no rosto do colega de farda, transformando aquele momento na queda do próprio. O labéu de um viado que se achou muito sabichão. Só então virou de costas e se preparou para sair. Tarde demais, o novinho já havia reparado no volume se formando na calça e o segurou pela perna, na intenção de apelar e fazer o que fazia de melhor. Inocente.

- ME SOLTA, CARALHO! Eu vou sair daqui que é pra não pistolar essa tua fuça, sua bicha escrota! Já não basta ontem, desgraçado!? - rosnou. - Eu acho muito bom tu nem pensar em falar comigo, ESCUTOU!?

Puxou o corpo e desvencilhou-se daquele que tanto foi seu único hábito durante tanto tempo, voltando a caminhar mancando. Aquele que recebeu tanto leite que poderia abrir uma empresa, caso quisesse, baseada em esperma de macho em crescimento, dia após dia num intenso treinamento. Renan fez uma dieta de batata doce, ovo, frango, salada e muito cuzinho de Samuel, só que isso estava tendo um fim decretado. Ele saiu do vestiário e resistiu aos instintos da carne que tanto o mantiveram preso naquelas situações de êxtase pela submissão e dominação sexual, se arriscando e até tomando esporro por conta disso em diversos momentos. Ninguém nunca fez o que aquele aspira o deixava fazer, porém tudo teve um preço, começando pelas brigas em casa, os danos físicos e toda aquela defesa sem sentido contra o sargento Ângelo, que era o inocente no fim das contas. Quantas pessoas não se infectaram por aquele tipo de toxicidade comportamental do arroba? Jogo baixo para um piranho de primeira linha! No fundo da mente de Renan Caçula, aquele brilho que ele presenciou ao ver Ângelo falando bem tranquilo e decidido sobre ter um marido, ou seja, amar e se relacionar com outro homem, surgiu novamente nos olhos. Quando foi a última vez que viu alguém defendendo outra pessoa tão bravamente e de maneira confiante e sincera? Será que aquele era um sinal de.. "Sei lá, amor!?", a mente impávida girou. Porque, parando para pensar, ele tentou defender Samuel, não tentou? Então também poderia chamar aquele sentimento de afeto, a princípio, não?

- "Acho que eu tava amarradão nesse puto!" - chegou perto de admitir.

E foi nesse contraste que o peito apertou. Outra vez, do fundo da mente, Renan Caçula lembrou-se de suas primeiras aventuras no mundo dos homens, anos atrás, quando ainda era indisciplinado, arrogante e mais rebelde do que tudo. Ele chegou a, num impulso, colocar a mão por dentro da calça como se quisesse pegar o celular, mas o aparelho não estava ali. Em sua mente, uma imagem NÍTIDA: a última vez em que alguém lhe fez algo por querer vê-lo bem, não só fisicamente e sim num sentido geral. A última vez em que um homem assumiu riscos para acobertar Renan. A voz da mãe reclamando veio imediatamente nos ouvidos, porque foi naquele período de tempo nostálgico que eles se conheceram. Ele lembrou daquele corpo branquinho, meio magricela, estilo franzino e de cabelo curto e deu um sorriso largo ao reconhecer algo que talvez houvesse deixado passar: alguém muito provavelmente já havia sim gostado dele de verdade!

Caçula, como sempre fazia quando suspeitava de que algo estava dando errado, tentou agir de acordo pelo restante daquele dia no quartel, muito embora tenha sido impossível disfarçar as dores no corpo e o inchaço no rosto. Aspira em treinamento e à beira dos jogos das forças armadas, ele preferiu fazer como já era hábito entre os parceiros de batalhão quando não estavam muito dispostos: trabalhar na intendência, um lugar silencioso e prático, bastante tranquilo. Ele quis procurar ajuda médica, algo raro para um moleque abusado e marrento que sempre afirma que está tudo bem e está tudo bem, mesmo quando nada está. Renan fez tudo mancando, lembrando-se de um fato pouco recordado, porém efetivamente importante: por se tratar de um batalhão há pouco tempo reativado, ainda não existia uma ala hospitalar naquela unidade, ou seja, o cafuçu teria que resistir e aguentar até o final do dia, quando finalmente chegasse em casa e aí sim poderia tentar relaxar e dar conta dos poucos machucados deixados pelo sargento Ângelo. Tudo aquilo pra nada, porque, no fim das contas, Samuel estava mentindo.

- "Mas também, quando eu pisar no apê.." - ele lembrou da imagem nítida do tenente esperando para enchê-lo de perguntas sobre aquelas marcas e ferimentos.

E agora? Não havia escapatória, óbvio. Caçula não encontrou nenhum daqueles rostos conhecidos dentro da área militar ao longo do dia, então deduziu que, assim como ele, optaram por não dar as caras machucadas pelo acerto de contas. Cansado, resistiu até o final da tarde e foi pra casa sem nem tomar banho, de tão exausto estava, a mente sem descansar na hora de lembrá-lo de todas as dores que estavam acima do corpo. O físico podia lidar com aquilo, mas e a mente atribulada? Isso tudo para não falar do medo que voltou a surgir assim que ele percebeu o mesmo carro prata que o seguira no dia anterior.

- "Que porra é essa!?" - o cafuçu pensou alto.

Por sorte, estava perto do mesmo atalho pelo beco de antes, então apostou no truque já utilizado e, mancando feito velho, pulou a mureta pela qual veículos não poderiam passar, cinco minutos depois de ter acelerado o passo para despistar o suspeito. O suor escorreu frio, ele limpou a testa com o antebraço moreno e suspirou um pouco aliviado quando chegou à escadaria do apartamento. A respiração atropelada impediu que a mente recordasse agora do prato final do dia, que só se fez presente quando Caçula abriu a porta do apartamento e voltou à realidade da situação.

- Renan? - o tenente não acreditou.

Sentado à poltrona da sala com um enorme livro nos braços, Tiago levantou num pulo quando percebeu a cara amarrotada do mais novo, arregalando os olhos.

- O QUE FOI QUE ACONTECEU!? Que merda que tu aprontou dessa vez!?

Caçula passou a mão no rosto suado e decidiu que metralhar era preciso, ao menos para sossegá-lo e não ter que escutar algum tipo de apurrinhação. Pela primeira vez, a consciência falou mais alto e se preocupou em dar ao irmão o que ele queria, mesmo que naquela segunda ou terceira tentativa de entendimento.

- Não foi no quartel, ninguém viu! Fica tranquilo que não tem nada a ver com você!

Mas o lado fraterno ainda existia firme e forte, apesar dos pesares de recentemente.

- Não tem a ver comigo? - Tiago pulou da poltrona pela parte traseira. - Tu chega no meu apartamento com a cara toda amassada e não tem a ver comigo, Renan!?

O cafuçu só abaixou a cabeça e se sentiu desarmado. Estava preparado para o lado adulto, porém ainda carregado dos trejeitos de moleque em crescimento, disposto a errar para ter que aprender. A mente em expansão jamais retorna ao tamanho original, ele sabia bem disso.

- Eu só vi uma coisa errada acontecendo e..

Mas lembrou-se também das dores físicas e de como chegou até ali. Vieram também em pensamento as ameaças deixadas pelo sargento e aquele carro prata o acompanhando em seu campo de visão periférica, como se alguma coisa estivesse prestes a acontecer em algum momento. E se Ângelo quisesse se vingar?

- .. tentei ajudar, e..

Ele fechou as mãos em forma de soco pra não ter que fechar os olhos e acabar fraquejando. Quem diria que existia moleza por trás de tanta dureza? Caçula tornou-se uma espécie de ode aos moles naquele instante, porém não deixou que a primeira lágrima de cansaço, tristeza e arrependimento saísse. Por ser um molecote abusado e cafuçu em plena ascensão, não seria qualquer um que teria uma ou outra lágrima arrancada assim de seu corpo cheio de vida.

- .. e me fodi. Só isso. - finalizou. - Eu queria ficar sozinho, Tiago. Só por hoje. Desculpa.

Virou as costas como se nada pudesse fazê-lo parar e andou em direção ao próprio quarto, mancando com o pé esquerdo injuriado de tanto esforço levado ao extremo. O tenente não insistiu, apesar de bastante preocupado com a visão inchada da bochecha do Caçula e do semblante de morto e exausto. Entendeu o pedido vindo do irmão, controlou as próprias perguntas e voltou a se sentar no sofá.

- Amanhã a gente vai conversar, Renan! - avisou antes de fingir que nada daquilo aconteceu e que estava apenas lendo um bom livro em sua própria sala de estar.

O cafuçu deitou na própria cama e quase pegou no sono, imerso em pensamentos e de braços abertos, todo jogado, sem nem trocar de roupa. Quando percebeu que estava enrolando por quase duas horas naquela sensação estranha, levantou, pegou uma roupa limpa e foi direto ao banheiro, tendo a certeza de que o irmão mais velho já havia se retirado ao próprio quarto. Encheu a banheira de água quente e pura, sem qualquer sal de banho, tirou a roupa e olhou-se no espelho vertical enquanto ela enchia.

- "Que merda!" - pensou.

A maçã do rosto inchada e ficando roxa, o lábio parcialmente cortado e até o nariz parecendo um pouco torto. O curto cabelo desgrenhado, além da oleosidade da pele misturada ao suor. Um mavambo bruto, com aparência de quem brigou feio na rua, o corpo marcado e devidamente pentelhudo. Ele se lembrou de Samuel ajoelhado entre as pernas, lembrou da vontade que sentiu em chutá-lo com todo o ódio e se arrependeu por não tê-lo feito naquela hora. Sem querer, lembrou também do cacete que ficou duro e de como foi forte para sair de lá sem comê-lo. Foi só pensar nisso que a vara pulsou diante do espelho.

- "Só pode ser brincadeira!"

Renan observou o físico ascendente e manchado pelas mãos impiedosas do sargento, lembrou-se do fato de que ele era envolvido com outro homem e sentiu-se bastante incomodado por qualquer coisa. O ódio, o toque, a bravura e a forma como Ângelo defendeu o marido sem qualquer sombra de hesitação pareceram uma ofensa a ele, talvez pela pouca diferença de idade e o que isso trouxe de experiência pessoal a cada um, mediante escolhas que foram feitas e se guardaram nas memórias. Por isso ele lembrava de tudo que aconteceu no vestiário, debaixo dos chuveiros quentes, porque foi importante, quase divisor de águas, com o perdão do trocadilho. Apesar de que, no fundo do peito, um desejo de sentar a mão no sargento ainda estava latejando, porque foi ele quem modificou seu físico na força bruta.

- "E isso aqui vai ter volta, Caçula! Fica esperto!" - ele memorou o corpão enrolado na toalha do militar que apontou-lhe na cara e ameaçou antes de sair.

Em seguida, veio a imagem do carro seguindo pela segunda vez e o frio na espinha começou a ser confundido com excitação. A água quente na banheira ameaçou transbordar e Renan se viu forçado a parar de admirar o próprio corpo de moleque afiado no espelho embaçado do banheiro. Sem delongas, o cafuçu apoiou-se na borda do lavabo e acomodou-se devagar abaixo da água quente e aconchegante ao redor, se envolvendo de maneira agradável e relaxante.

- Arhhh! Sssss!

Encostou a cabeça na beira, soltou o resto dos músculos e só agradeceu por finalmente ter chegado onde queria chegar desde o começo daquele longo e dificultoso dia. Já esteve bem melhor, podemos dizer, mas ali, na banheira quente do apartamento do tenente, os problemas puderam ser um pouco minimizados em vários aspectos, começando pelo desconforto físico e as dores. Esse relaxamento voltou a ser confundido com a mente imparável do Caçula, que não teve como se segurar e voltou ao cenário do vestiário. Ele lembrou de Samuel caído e se masturbando com a visão da guerra entre dois cafuçus legítimos, então o cacete voltou a mostrar que estava respondendo bem a todos os neurônios transmitindo impulsos elétricos pelo cérebro de marrento.

- Isso é sério? - teve que olhar pro próprio pau para acreditar no tesão.

Viu a meia bomba preparada para qualquer atrito, percebeu os pentelhos bem dispostos pela água quente e até o saco estava aliviado por tanta atenção. Ele escorregou a mão pelos cabelos abaixo do umbigo, enlaçou a grossura da caceta com os dedos e puxou o prepúcio para cima, revelando o couro rosado e lustrado do parapeito da pica, bem brilhante, ainda que submersa. Não pensou em ninguém em específico, só quis dar-se um pouco de prazer ao final daquele dia, sem hesitação ou pudor. Emendou uma sequência calorosa e deliciosa de vai e vem, apoiou o pé direito na extremidade oposta da banheira e envergou um pouco o corpo, dando conta do fato da ereção ter iniciado bastante plena, crescendo um talo espesso e pentelhudo de caceta de macho cansado e doido por uma gozada, o saco cheio pedindo leitada jogada fora.

- SssssS!

Nem precisou cuspir, como usualmente fazia quando optava por se masturbar. Raro, já que sempre teve Samuel à disposição. Renan usou um dedo para massagear a ponta da cabeça do cacete duro enquanto bateu o punhetão, ao mesmo tempo que massageou um mamilo com a outra mão, sentindo melhor do que ninguém o que era ser Renan Caçula. O físico se esticou todo, o prazer veio surgindo do meio do atrito úmido e escorregadio entre a pele da mão bruta e do tecido da glande bojuda da ferramenta. A coxa peluda também foi alisada, assim como os pelos entre a virilha e o umbigo, voltando outra vez ao mamilo intumescido.

- Orhhh! Hmmmm!

Esticou a corpulência bem de leve e fechou o sacão entre os dedos na hora de gozar. Os ovos pularam dentro do escroto, reagindo à ordem de produzir leite e ejetá-lo na água da banheira. Nada melhor do que ser um molecote solto e dono de si, que não tá nem aí pra se banhar no próprio gozo boiando. As marcas e dores eram apenas detalhes deliciosos do ser, nada mais, nada menos. Sem elas, Renan Caçula talvez não fosse Renan Caçula, o futuro marinheiro emergindo de tantas experiências e ensinamentos pessoais. E agora, todo aberto às águas quentes e tentadoras da banheira, bem à vontade consigo mesmo.

- SSSSS!

O primeiro jato veio forte e permaneceu submerso, boiando feito um balé de filhos dispersos em quantidade abundante de calor e umidade quente. Ao redor, no banheiro, tudo embaçado e escorregadio, assim como seu físico tentando se aconchegar na água e gozar ao mesmo tempo.

- Ffff! - ele chegou a morder o lábio inferior, de tanto tesão sendo liberado e sentido.

Continuou batendo por mais alguns segundos, enquanto o resto de leite foi saindo e se misturando na sopa de cafuçu preparada na banheira. Só então Caçula diminuiu a pressão no pé apoiado na beira e quase desceu com tudo por baixo d'água, tamanho relaxamento espalhado pelo corpaço em dia, além de parcialmente amassado. Ele abaixou o rosto e ficou com o nariz submerso, os olhos quase fechados e repensando os últimos acontecimentos. No final do dia, teve que bater punheta pra se aliviar. O cafuçu sentiu outra vez a mente deslizar e o peito pulsar, lembrando daquela mesma silhueta de outrora. Na mente, tentou evitar uma única palavra que se fez presente a partir dali: saudades! Alguém definitivamente já havia mexido com Caçula, ele sabia bem quem, onde e quando, então, a partir dali, tomado pelo desejo de ser aquele quem realmente queria ser, começou a pensar no que estava faltando: o como.

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Parte 3: "Reencontros" e "Acerto de Contas, Parte 1".

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Comentários

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23/06/2018 05:32:48
obrigado pelas palavras sinceras, dakparadise! acho que o diferencial é que eu não sou mais um autor da cdc, sou um autor que começou na cdc e que hoje só a usa como uma das várias plataformas de postagem, porque meu acervo completo está somente no wattpad mesmo, e eu prefiro lá por ser mais organizado, categorizado, etc etc :p e sim, isso aqui anda mortão, mas enfim.. seguimos juntos <3
22/06/2018 21:06:28
Tomara que o João não traia e perdoe o Ângelo!!
22/06/2018 20:09:03
André, eu estou acompanhando o seu conto, mas esqueço de votar e comentar. Então aqui estou eu, parabéns viu cara!!. Acho que você é um dos poucos autores da CDC que sobraram (pois ta um flop isso aqui ultimamente) que coloca a alma na história, aliás, isso que é importante em um conto.. o autor colocar a alma dele nele. Enfim, continue com a suas histórias, e parabéns viu?! 10.
22/06/2018 00:07:00
seja muito bem vinda ao wattpad, Nayarah! depois me fala o seu nick lá pra eu ver, sou curioso desde o primeiro conto que postei aqui e você comentou hahahaha :) LEBRUNN, não sou nenhum egocêntrico igual meus personagens, mas poderia continuar alguns minutos te ouvindo dizer essas coisas no meu ouvido HAHAHAHAHAHA tamo junto, meu parceiro! e vamo que vamo <3 não tire os olhos de mim, certo?
21/06/2018 11:20:25
Martins, você é tão necessário por aqui. Suas narrativas me movem sempre. Me faltam palavras para te dizer o que merece um escritor tão talentoso. A saga de Pé de Moleque é o apogeu da CDC. Ponto.
20/06/2018 22:04:41
O Anjo tem que colocar os dois frente a frente com o João para esclarecer tudo......Agora a Cintia está se sentindo uma adolescente.

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