Jazz: um jogo de sedução em São Paulo

Um conto erótico de Thomas Crown
Categoria: Heterossexual
Data: 15/05/2019 00:37:09
Nota 10.00

Olá, sou Thomas, tenho 32 anos e sou gaúcho e esse é o meu primeiro conto por aqui e faz parte de uma lista não tão grande de histórias que gostaria de publicar. Trata-se de uma experiência própria e inusitada que, quando acontece, poucos sabem aproveitar tão bem. Esse texto conta a primeira parte apenas e deixa uma dúvida no ar. Será que vocês conseguem descobrir? Boa leitura!

Sempre que se entra em um jogo de sedução, o objetivo é a conquista. Mas aqueles que acham essa a melhor parte, estão no mínimo, precipitados, pelo menos para mim. O melhor é aquele friozinho na barriga, a incerteza. É fazer um elogio, sem saber ao certo se surtiu efeito; jogar uma carta na mesa e esperar que dê certo; dar um passo no escuro, esperando alcançar um chão seguro. Nada te garante que, mesmo seguindo um roteiro cauteloso, a noite estará ganha. Eu detesto roteiros cautelosos. Saio no improviso, observando por onde os olhos de quem eu quero agradar passeiam. Cada gesto é um indicio a meu favor. O objetivo ainda é a conquista, mas esse suspense é, sem dúvida, a minha parte favorita nesse pequeno jogo que chamamos de sedução.

Sou músico, pianista de Jazz e tenho sido convidado bastante para apresentações em festivais e festas particulares. Em uma viagem a São Paulo, acabei me hospedando em um hotel de bom gosto, em frente a Faria Lima, e fechando um evento no salão de atos do mesmo hotel. O local estava mais para uma casa noturna. Palco nos fundos, mesas a frente no interior do salão e mezanino a direita e bar a esquerda.

Na noite da apresentação, eu estava vestindo uma camisa social branca com dois botões abertos, uma calça jeans azul e sapatos Oxford amadeirados. Subi no palco, coloquei uma garrafa de água ao meu lado no chão e comecei. A salão já tinha metade das mesas cheias e, em 20 minutos, dá para se dizer que lotou. Inclusive a parte superior. Era um local de luxo, requintado na decoração, luz quente e uma plateia comportada que ocupava as mesas sem falar alto. Somente em frente ao bar havia pessoas de pé.

Durante a apresentação, eu observo o meu público, tento perceber se estou agradando ou não. Já ficou automático perceber quando assoviam, aplaudem, cantam ou se tem alguém que não está prestando atenção. À minha frente, havia um grupo de mulheres sentadas perto do palco que davam risadas contidas toda vez que eu as olhava e comentavam entre si. Eu sei das minas qualidades: 1,81cm de altura, moreno, uns 85kg, nem magro ou gordo, sem barriga, levemente musculoso e cabelo curto e barba castanha de tamanho médio. Era normal eu fazer um pouco charme para a plateia. Era parte do meu show, mas nada além disso.

Após o meu primeiro intervalo, uma mulher caminhou da entrada ao bar e pede uma bebida. Ela tinha uma beleza fácil de apreciar. Longos cabelos pretos, pele dourada, óculos, maquiagem suave e batom rosado quase nude. Usava uma camiseta social branca, saia escura até os joelhos e salto. Só vi tudo isso, pois o bar é sempre um pouco mais iluminado. Sentou, fez um coque, mostrando um fino pescoço e pegou a sua bebida. Que entrada. Certamente chamou a atenção de mais pessoas ali.

Eu segui o meu show, observando as pessoas ali para disfarçar, mas ela era o meu foco principal. Não tinha como ser diferente e ela nada fazia além de tomar o seu drink, mexer no celular e olhar para o palco. De vez em quando, conversava com o barman. Eu tentava decifrá-la, entender o porquê estaria ali, se estava esperando alguém, um homem, uma mulher. Vi um homem tentar uma aproximação, chegaram a conversar por alguns rápidos minutos, porém ele saiu sem êxito. E eu, de longe, observa a morena misteriosa como um mero expectador, somando a sua bebida, uma agradável música naquela quinta-feira à noite.

O show acabou e ela continuou ali. Eu saí pelos fundos e fui ao banheiro. Geralmente, nesses shows eu pego uma bebida e subo para o meu quarto, mas motivado pela curiosidade de saber mais sobre aquela mulher, decidi voltar e tentar a sorte. Antes, ajeitei a camisa, conferi rosto e cabelo e segui para o bar. Por sorte, ela ainda estava lá. Uns 15 minutos se passaram desde que havia terminado a minha apresentação. O jogo estava prestes a começar, aquele friozinho bom que nos faz se sentir acesos começou a se fazer presente no meu corpo, caminhando como um lobo prestes a dar o bote, atravessei o salão e cheguei ao bar. Era preciso adicionar um pouco de whisky ao meu perfume.

Pedi uma dose de Chivas, ela me olhou. Despretensiosamente, puxei as mangas da camiseta até antes dos cotovelos, botei meu celular em cima do balcão, recebi minha bebida e dei um apreciado gole naquele whisky. Algumas pessoas passaram por trás da gente em direção ao lobby, um homem virou o rosto a olhando, mas não foi correspondido. Lembrei da rápida conversa que ela teve enquanto eu tocava. Foi rápida demais. Penso que cantadas nunca devem iniciar uma conversa, mas complementá-la. Porém a paciência não é o nosso forte quando se trata de estar com mulheres. Um erro fatal. Por isso, eu ia improvisando uma aproximação simples, quando uma nova bebida chegou a frente dela.

- Aqui está, o Indian Flavor. – O barman entregou o copo.

Um copo grande com uma bebida marrom alaranjada cheio de gelo e um pó preto que crustava a sua borda. Ainda não o tinha visto. Embora eu goste de saber mais sobre bebidas e sabores diferentes, não conhecia aquela bebida ou naquela apresentação, mas dei sorte, conhecia a sua composição. E isso foi o approach ideal. O cenário já estava montado e era perfeito: éramos só nós dois naquele bar, bebidas a nossa frente, algum jazz – sempre ele – e pouca luz adicionavam um toque romântico aquele local. Eu estava prestes a começar.

A moça misteriosa deu um gole.

- Hum, ótimo, o que têm nele?

- Whisky, xarope de Massala e café Malabar.

- Nossa, muito bom. Diferente esse café...

- É porque é salgado. – Me intrometi. – Ela me olhou surpresa. Eu me aproximei. - Antigamente, os grãos que eram levados da Índia para a Europa acabavam ficando com um sabor levemente salgado, por causa da maresia do mar. E hoje as marcas que produzem o Malabar, recriam artificialmente esse processo.

Ela fez um gesto com a boca de quem achou interessante, me olhou dos pés à cabeça rapidamente. Não esperei o silencio tomar a nossa conversa. Me aproximei ao banco próximo dela, correndo minha bebida pelo balcão e acrescentei:

- Eu gosto de cafés... e gosto de bebidas também. – Falei como estivesse explicando o motivo pelo qual eu sabia daquilo. – E eu me chamo Thomas. Levantei o meu copo, fazendo um gesto de brinde e a esperei. Lancei a primeira carta a mesa.

- Prazer, Thomas. Helena. – Falou estendendo o copo dela, correspondendo ao meu gesto.

- Gostou do show? Só para saber se eu ando agradando o meu público.

- E eu sou o seu público? – Foi a vez de ela lançar a carta dela. Estava funcionando.

- Talvez, mas acho que gostou sim. – Ela estava com as pernas cruzadas em cima do banco, com as batatas e um pouco da coxa ficavam a mostra. Mesmo assim, eu não descia os olhos para além do pescoço. Não era o momento de cortejar o seu corpo ainda.

- Hum, e por que você acha isso? – Ela falava sem sotaque algum, difícil identificar da onde ela era, mas não era paulista, eu supunha. E agora, adicionou mais perguntas a minha curiosidade, mais mistério aquele jogo.

- Porquê eu acho que você parou para bebericar alguma coisa, depois de voltar de algum evento ou encontro e, depois de 1 hora ou mais, ainda está aqui. – Ela riu e, me olhando, deu um gole.

- Eu não estava aqui desde o início. Mas sim, gostei do show.

- Que feio, não se pula as preliminares. – Ela riu de novo. Aos poucos eu ia avançando, dando passos ousados e até incertos, mas o chão estava sempre ali. A conversa estava fluindo bem. Eu dei um gole.

- Como sabe que eu estava em algum outro evento? – Mais perguntas...

- Bom, você está hospedada aqui, óbvio. – Olhei procurando um ar de confirmação. Ela gesticulou um sim com a cabeça e eu continuei: – Mas não é a primeira vez. Você veio direto para o bar, mesmo tendo algumas mesas disponíveis e a casa oferecendo garçons, falou com o barman como se o conhecia. Logo, voltou de algum evento a noite e ia para o seu quarto, mas resolveu beber algo antes de subir. Poderia ser algum encontro, mas isso pediria alguma roupa menos formal que uma camisa social. Por isso, um evento atípico. Reuniões não acontecem a essa hora da noite.

Ela fez uma expressão de surpresa, porém não desapontada. Eu estava no caminho certo.

- Porém, a noite acabou cedo ou não estava tão boa assim, pois você não subiu ainda e aqui estamos nós.

Ela abriu um sorriso surpresa.

- Nossa, eu estou impressionada, muito observador. Sou gerente comercial de uma multinacional, já é a terceira vez que me hospedo aqui. Fui a um evento sim, mas não estava chato, era um coquetel de inauguração de loja, por isso, acabou cedo.

Uma rápida pausa se fez entra a nossa conversa.

- E já ia para o meu quarto sim, mas parei para adocicar a boca.

- Bom, então só existe uma pergunta a ser feita agora. – Comentei.

- E qual seria?

- Para alguém que estava de passagem por aqui, o que a fez ficar até agora? – Perguntei a olhando nos olhos.

Ela me olhou também, mas de uma forma diferente. Stranger In The Night começou a tocar nas caixas de som atrás do balcão e, por segundos, um ar terno tomou o seu rosto. O jogo estava mudando, havia mais mistérios por ali do que os que eu acabara de resolver. Fiz um olhar de dúvida, tentando decifrar, mas ela despistou, comentando que adorava a música.

- E você, é a primeira vez que toca aqui?

- Sim, não sou daqui também. Vim para um festival de jazz e falei antes com alguns hotéis para encaixar alguma apresentação minha. E foi aqui que eu consegui. Primeira vez que me hospedo nesse hotel.

- Não é daqui também? Eu não sou daqui?

- Ah sim, acho que ficou subentendido que você não era paulista já que estamos em um hotel, certo?

- Ah, claro. Óbvio. E já descobriu da onde eu sou, Thomas o observador?

- Pode me chamar de Tom. Não, não descobri. Acabaram as minhas deduções.

- Hum... faltou uma bem óbvia também aí.

- Opa, e o que seria?

- Sou noiva. – E riu e depois deixou a mão em evidência em cima do balcão. Pena, acho que a música a havia lembrado que existia alguém, em algum lugar, pensando nela, confiando nela. Por isso, o olhar terno. Pensei comigo, tudo bem. Foi uma noite agradável mesmo assim. A conquista não ia vir, mas o jogo estava ali e eu tinha feito parte dele, mesmo que por pouco tempo. Talvez, em uma outra ocasião, essa noite terminasse de maneira diferente.

- hum, uma pena com certeza. Afinal, esta estava sendo uma daquelas noites, sabe? Um encontro qualquer em um lugar diferente, uma boa conversa. Acho que começamos bem, não? Poderíamos ter terminado bem também.

- Talvez.

- Nem dançamos. Uma pena com certeza. – Não falei isso, com ar de derrotado. Falei ainda dentro do jogo, com ar de debochado e olhando em seus olhos.

- Você dança?

Olhei para a boca dela - Eu danço. – Ela olhou para a minha boca também, mostrando que ainda estava dentro do jogo também. Um silêncio se fez entre a gente como se esperássemos o convite. Mas o convite não veio. Achei que ela havia perguntado por surpresa mesmo, mas em seguida perguntou.

- Você toca há bastante tempo? – Bom, ela queria continuar a conversa, então achei, por certo, adicionar um tom de provocação e partir para o tudo ou nada, já que não tinha nada a perder mesmo. Talvez fosse isso que ela quisesse, talvez o relacionamento já estivesse cansado, pouca sedução e muita rotina, sabe como é. Se bem que ela acabara de ficar noiva, difícil já estar na rotina.

- Desde criança, mas tem coisas que só se aprende a tocar depois de muita experiência. – Ela entendeu. - E já fez a despedida de solteira? – Ela sorriu.

- Não, não tive tempo para pensar nisso ainda. E acho que nem vou ter.

- Talvez seja nesses pequenos momentos fora da rotina que se possa aproveitar os últimos momentos da solteirice. Afinal, sabe se lá quando uma nova oportunidade assim pode surgir.

Eu a olhei sério, ela deu uma risada depois me olhou séria também. Dei a última deixa, seria agora ou nada feito. Pedi uma garrafa de espumante para o barman e disse:

- Até porque, - olhei para a boca dela - pode ser que você nunca mais fique solteira. Não vá desperdiçar.

Ela me olhou um pouco tensa, pareceu indecisa, olhou para o copo e já estava vazio. Quando me olhou de volta, eu estava de pé. Peguei a garrafa de espumante, falei para o barman colocar na conta do quartoJá vai? – Fiz um gesto de confirmação com a cabeça, no que ela muito surpresa, perguntou: - E a dança?

Eu olhei para o resto do salão, vazio, apenas alguns funcionários do hotel aqui e ali.

- Aqui não tem espaço suficiente. - Cheguei com o meu corpo próximo ao dela, toquei levemente o seu queixo e beijei o seu rosto. Senti o seu cheiro, ela sentiu o meu. Sussurrei em seu ouvido.

- Você sabe o número do meu quarto. – E fui embora sem me despedir.

Essa primeira parte termina por aqui.

Foi muito bom escrever esse conto e, em breve, postarei a sequência.

e-mail: [email protected]

Comentários

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  • Desejo receber um e-mail quando um novo comentario for feito neste conto.
19/05/2019 21:58:52
Sensacional. A conquista é uma batalha sem ponto final. Parabéns
16/05/2019 15:28:57
Tem sim, a noite é longa!E obrigado pelos comentários.
16/05/2019 02:17:52
Ótimo começo. Tem fim?
15/05/2019 23:53:38
15/05/2019 23:53:38
Excelente!

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