Um Everest que passou na minha vida - IV

Olá galera, tudo bem com vocês?

Eu estou super contente com os comentários e as leituras, sério mesmo, muito obrigado.

E peço que comentem sempre que conseguirem, porque isso me diz se devo continuar e tals.

Ah, e um parentese, esse conto não é daqueles tipos que vão direto ao sexo selvagem não,

eu amo histórias assim, relatos e tudo, mas aqui a coisa demora um tantinho.

Uma boa leitura a todos.

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A agitação tomou conta de todos e a policia foi obrigada a nos empurrar, abrindo um circulo seguro dos escamoteados carros. Deles era possível ver a fumaça subindo para o céu, mas em nenhum lugar outras pessoas feridas além do corpo de Gustavo no chão próximo a Jamile. E era exatamente nele que eu estava mirando quando um dos policiais me fez passar para o outro lado do circulo junto às outras pessoas. Mesmo afastado continuei a observar os desdobramentos, porque a culpa estava moendo minha cabeça e meu estomago junto. Minhas pernas não atendiam ao meu comando e para piorar Jamile estava vindo em minha direção.

Eu olhei para os dois lados a fim de saber se mais alguém da loja - além de mim e Jamile – assistiam ao desastre, mas diferente de nós os outros funcionários se contiveram. Eles na verdade mal saíram da loja. Ela me olhou de cima e parecendo menos preocupada do que eu supunha:

- Avise que iremos fechar agora mesmo, tentei contato pelo telefone com Clarisse, mas deu caixa, fale com as meninas para arrumar as seções, e Najila confere o fechamento dos caixas – eu respiro fundo e olho por sobre o ombro dela os paramédicos se aproximarem do corpo, ela se vira para o olhar também e me tranquiliza – ele tá bem, foi só mais um susto.

Assinto para ela, e só então me viro para abrir espaço pelas pessoas. Algumas reclamam outras com educação cedem espaço e eu só consigo pensar na policia batendo na minha porta. Além de desempregado, sim porque penitenciário não tem emprego, serei um depressivo, amargurado. Realmente meus pais vão ter razão quando descobrirem no que seu filho se tornou. O pior de tudo, se algo de ruim acontece ao Gustavo, ao Montanha, eu jamais vou perdoar a mim mesmo, não era para as coisas terem acontecido assim. Respiro fundo, três vezes, a ambulância passa em sentido ao hospital regional, e eu suspiro.

Finalmente consigo entrar na loja, sem derrubar nenhuma pessoa no processo, o que dada às condições não é nada fácil. Aquele diabinho dentro de mim começa a sussurrar no meu ouvido “Acostume-se com o aperto no presídio será uma cela pra cinquenta homens.” O pensamento chega embrulhar meu estomago...

- Amigo cê estava lá? E ai o que foi mesmo que aconteceu uns dizem... – Cristina foi a primeira a vir em mim, seguidos de Evangeline e Clarisse.

Eu só mirei nessa última para não esquecer o que Jamile tinha me dito, porque todos os meus pensamentos estavam voltados para o meu crime. E essa palavra começava a pesar na minha cabeça.

- Jamile disse que tentou falar contigo pelo celular, mas deu caixa, ela quer que feche a loja agora, só pediu para arrumarmos as seções e Najila fechar os caixas. – Eu digo olhando diretamente para Clarisse que já saca logo o celular para conferir.

Eu seguro a mão de Cristina, e a aperto com força. Ela me olha de esgueira e parece entender que algo não vai nada bem. Engulo em seco e caminho para a minha seção que está uma bagunça de peças no chão, peças fora do lugar, bermudas com calças, até uma camiseta aparece entre as bermudas. Tudo uma zona de guerra igual meus pensamentos. As roupas eu consigo dar um jeito e organizar tudo em alguns minutos, já os pensamentos... Do nada Cristina aparece bem ao meu lado e eu respiro fundo, porque sei que se não me segurar vou contar tudo a ela e esse não é o momento... Ou é? “Eu preciso desabafar com alguém” meu anjinho bom me diz lá no fundo.

- O que foi que aconteceu contigo hein? Tu chegou com uma cara. – Eu engulo em seco duas vezes sem conseguir dizer nada. – Clarisse pediu pra avisar que recebeu um e-mail de Jamile e vamos fechar mesmo, e saber o que tá acontecendo contigo? Ficou assim desde que falei no Montanha hoje cedo.

- Nós falamos depois, - penso rápido – no bar, pode ser? Estou precisando beber um pouco.

Ela sorri desconfiada e passa por mim. Fico ali perambulando pela minha seção conferindo se está tudo em seu lugar, até perceber um brilho diferente no chão embaixo de uma das araras. Agacho-me para ver o que é, e quando eu puxo se revela um relógio dourado, provavelmente banhado a ouro. Olho na parte traseira dele, e está escrito o nome de Ricardo Villar, algum cliente da loja provavelmente. Levo o objeto para a sala de Clarisse para ser guardado até o dono vir buscar. Desço os degraus sem pressa, e espero na fila como os outros para poder bater o ponto. A loja já está quase completamente vazia.

Ao meu lado duas das meninas do caixa, conversam sobre o estado dos carros do lado de fora. E o boca suja do moleque das camisas que me recuso dizer o nome, só porque nem merece ser lembrado, diz com o maior desdém:

- Pelo estado o dono do carro deve ter morrido, - e sorri. Eu não me aguento e viro pra ele na mesma hora.

- Tem um pouco de compaixão garoto – digo, Cristina segura meu ombro, - não morreu ninguém...

Cristina sussurra no meu ouvido, para eu ter calma, por causa do trabalho. Mas sou eu mesmo que me seguro, não posso falar de ninguém, nem brigar com ninguém por causa do acidente... Acidente não, crime! Que foi isso que eu fiz. Sorrio para ela, e volto à fila para poder bater o ponto. Antes de sair da loja, penso sobre a possibilidade de até o final da noite eu estar preso, e uma parte de mim treme só de cogitar a outra me manda ir mesmo para o bar, encher a cara enquanto posso. E é exatamente o que eu e Cristina fazemos.

No caminho eu evito conversar com ela sobre o acidente, fico comentando besteiras sobre o trabalho. E ela volta a falar sobre o que conheceu do Montanha enquanto este não tinha feito a tal cirurgia. E eu me reservo ainda mais dentro de mim, censurando a minha raiva idiota, e burra...

- Fica de olho na hora viu, hoje tenho um compromisso inadiável – Cristina graceja, e se eu já conheço alguma coisa dela, com certeza é por causa de homem. Engano-me redondamente. – Vou entrar para um coral, não é o máximo? O primeiro paço para eu me tornar uma estrela do teatro musical.

- Então brindemos – eu digo sem qualquer animação. Pedimos o primeiro shop, e eu fico remoendo comigo mesmo o assunto, se devo contar ou não. Nisso tomo outros cinco shops, Cristina para no segundo.

- Que coisa não é? O que aconteceu com o Montanha hoje? Bem no dia que eu estava falando dele com você.

Isso me cala fundo e eu engulo o restante do shop do copo. Aperto bem minhas pálpebras decidido a contar tudo a ela, mesmo que isso não adiante de nada. Pelo menos alivio minha culpa, divido com alguém, mas quando eu abro os olhos para contar a minha amiga, a vítima do meu crime surge na porta do bar. Seu olhar de gelo percorre todo o lugar e vem parar justo na gente.

Solto o ar preso no meu peito, porque ele se senta em uma mesa distante da nossa, mas continua a nos olhar.

- Isso sim é coincidência – eu digo apontando o queixo para onde ele está.

- Puta merda, é mesmo... Vou chamar ele pra vim pra cá. – Cristina fala e já tá em pé fazendo isso, só depois se dá conta da merda em que me coloca. – Desculpe amigo, você ainda tá maus por causa da confusão da água?

Nem temos tempo de conversar mais nada porque Gustavo se desloca bem rápido para a nossa mesa, e só de perto que dá para ver um corte na testa. Ele aperta a mão de Cristina e depois a abraça, parece até encabulado, por causa dela. Eu fico ali, sobrando, e tenho vontade de sair de fininho, mas ele se vira pra mim imediatamente depois de cumprimenta-la.

Olhando-o de perto nem parece ter sofrido um acidente. Ele aperta minha mão com uma força que me aleija a mão fica impossível pegar em qualquer coisa depois do aperto.

Gustavo e Cristina começam a relembrar os velhos tempos, mas hora ou outra ele dá aquela olhada para mim, como se me dissesse eu sei exatamente o que você aprontou. E toda a vez que penso nisso, no que esse olhar significa, eu abaixo a cabeça. Meu rosto chega a arder tamanha vergonha. A noite lá fora já está quase começando quando Cristina levanta da mesa, eu por pouco não levanto junto.

- Tenho um compromisso daqui a alguns minutos – ela diz com os olhos presos nos meus.

- Ah eu também já vou... – digo enfim, e o Montanha me fuzila com o olhar.

- Gostaria de levar um papo contigo, pode ser? –ele diz diretamente pra mim. As palavras me fazem cravar as unhas na palma das mãos e morder com força o lábio inferior.

Cristina já está de pé quando seu celular toca, ele aponta para ele no ouvido, e dá tchau para mim enquanto caminha até a porta. O bar começa a encher de gente, mas é como se estivesse apenas eu e o Montanha, sozinhos. Seus olhos cravam em mim fundamente, eu engulo em seco diversas vezes e não consigo ficar encarando ele também. Gustavo cruza os dedos das mãos em cima da mesa, com os cotovelos apoiados nela. Eu me mantenho calado e sem saber como começar a sinceramente pedir desculpas pelo que fiz.

Ensaio comigo mesmo, a forma de dizer o quanto sinto muito por tudo. Que não foi minha intenção causar mal a ele, sim ao carro, por causa dele mesmo. Porque ele fica me provocando afinal? Não, não, nessa, ele tem todo o direito de ficar puto, porque eu mereço, considero comigo mesmo.

- Eu não queria te machucar – digo de uma vez – falo sério, não foi essa minha intenção eu nunca faria isso com ninguém.

É depois de dizer que me passa pela cabeça a possibilidade de ele nem saber de nada, e se não sabia agora...

Seus olhos ágeis semicerram-se e ele gargalha, depois, estala os dedos para o garçom e volta a cruzar as mãos em cima da mesa. Sua postura enrijece e eu começo a pensar na possibilidade de me entregar logo a policia, porque pela forma como ele me olha com certeza serei destroçado.

- Não – ele ordena – fique ai mesmo. Que bom que confessou assim de cara que entupiu e destruiu o meu carro.

- Você atirou uma droga de uma bituca de cigarro na minha cara e me fez perder o celular, sem contar... – eu me interrompo.

- Acho que tem uma distancia, tipo um abismo mesmo de provocações e tentativa de assassinato.

Eu arregalo os olhos e sinto minhas pernas amolecerem na mesma hora, ele então sorri, pega a bebida que chega e toma um gole.

Na mesma hora eu relaxo meus ombros, e deixo meu queixo pender um pouco para baixo. Do nada Gustavo estrala todas as juntas das mãos, e isso causa um horripilante barulho seguido de TRAATRAA, nem saliva mais eu tenho para engolir. Só me rendo e deixo meus olhos desaguarem.

- Me desculpe por tudo, me desculpe mesmo, saiu do controle quando eu vi já estava lá colocando aquelas coisas no escapamento do seu carro, eu sei, eu sei que não deveria mas... Desculpe cara...

- A tua sorte malandro é que eu estou com um bom humor do cão, e por isso não vou te levar lá pra fora e moer teus ossos – ele bebe mais – ainda não. E eu não aceito suas desculpas. Apareça lá na academia amanhã, depois do seu expediente, pra gente bater um papo mais sóbrio.

Montanha empurra a cadeira para trás, sai sem olhar para trás. E uma mistura de alivio, angustia e mau presságio passa pelo meu corpo, fico a ponto de me molhar inteiro na roupa. Levanto logo em seguida e me tranco no banheiro do bar. Meus soluços saem sem que eu possa controla-los, eu fui imprudente, estúpido, e covarde. Mas o que ele quer me falar que não poderia ter dito já desde logo? Respiro fundo e limpo as lagrimas dos olhos.

Comentários

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09/10/2019 06:04:55
Continua logo
09/10/2019 00:48:25
UAI, PENSEI QUE FOSSE O MONTANHA QUE TAVA MORTO. MAS VC É UM BOCAABERTA MESMO, ADORA CONFUSÃO. NÃO TINHA NADA QUE CONTAR PRO MONTANHA QUE FOI VC QUE FES ISSO NO CARRO DELE. SEU BOCA ABERTA. E AINDA VEM COM DRAMA DE CONSCIÊNCIA. ME POUPE. CAPÍTULO FOI MEIO CONFUSO.
08/10/2019 21:38:01
muita coisa envolvendo o montanha précis s ser revelada.
08/10/2019 20:17:50
Continua... excelente capítulo! Quero ver o que ele tanto quer à sós com o outro. E se poderia aumentar um pouco os capítulos haha

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